Campo Mourão Amadeus era um daqueles típicos brasileiros apaixonados por futebol. Pudera. Ainda muito jovem teve a chance de ver o Brasil ser tricampeão no México. Foi na Copa de 82, na Espanha, no entanto, que Amadeus se entregou de vez ao futebol. ''O Pelé que me desculpe, mas esta seleção do Telê é bem melhor que a aquela'', costumava repetir. ''Vai dar Brasil e Alemanha na final e vamos se tetra!''

A confiança de Amadeus no time de Zico, Sócrates e Falcão era tanta que os amigos de Campo Mourão o apelidaram de Zé da Galera, o fanático personagem de Jô Soares que exigia um ponta direita na seleção. As vitórias do Brasil nos quatro primeiros jogos da Copa só fizeram aumentar a euforia do Zé da Galera. Ele não tinha mais dúvida nenhuma que, assim como apostara no bolão, a final seria entre brasileiros e alemães.

Foi naquele fatídico dia 5 de julho de 1982, no entanto, que a vida de Zé da Galera mudou completamente. Ou melhor: acabou. O Brasil perdeu para a Itália de 3 x 2 na chamada ''tragédia de Sarriá''. Três gols de Paolo Rossi. Zé da Galera ficou estático diante da TV. Não se mexeu mais. Olhos vidrados, olhando sabe-se lá para quê. Passaram minutos, horas, dias, semanas, meses e anos. Não se mexia mais. Só respirava.

Ninguém conseguiu explicar o que estava acontecendo com o Zé da Galera. Nem os médicos. A esperança passou a ser as novas copas do mundo. Quem sabe se o Brasil fosse campeão, com Zé da Galera na frente da TV, ele voltaria ao normal? A família e os amigos fizeram de tudo, mas os fracassos nas copas de 86 e 90 não ajudaram muito. Pior: nem com o tetra em 94 Zé da Galera acordou. Muito menos com o vice de 98.

A Copa de 2002 começou e colocaram Zé da Galera novamente em frente à TV. Sentado numa cadeira de rodas, ele não reagiu às três vitórias na primeira fase nem aos despachos de Bélgica e Inglaterra. Mas quando o juiz apitou o final de Brasil 1 x 0 Turquia pela semifinal e o narrador anunciou a decisão entre Brasil e Alemanha, o milagre aconteceu. Zé da Galera levantou os braços e gritou: ''Que venham os alemães!''

Vinte anos depois, Zé da Galera voltou a viver. Nesse mesmo dia, desfilou pela Avenida Capitão Índio Bandeira e comemorou tomando uma cervejinha no Bar Aparecida. Ele estranhou algumas coisas, mas nem deu bola. O importante era comemorar a tão esperada decisão com a Alemanha. Nem precisa dizer a festa que o Zé da Galera fez após os 2 x 0 deste domingo, apesar dele insistir em chamar Ronaldinho de Serginho Chulapa.

Hoje todo mundo está feliz. Zé da Galera voltou à vida e o Brasil é penta. Se bem que isso está difícil para ele entender. Para o velho Amadeus, ainda é 13 de julho de 1982, o Brasil conquistou apenas o quarto título, o prefeito de Campo Mourão é Augustinho Vecchi e Rubens Bueno é candidato a deputado estadual. Não existem Internet nem celular. As Alemanhas são duas. Só uma coisa não mudou: o futebol brasileiro é o melhor do mundo!

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