Zé da Gaitinha ficou fora da banda e longe de Londrina
Paulo Ubiratan
Solteirão e filho único de mãe viúva, Manoel Areiosa da Silva, 38 anos, conhecido por Zé da Gaitinha, quase veio morar em Londrina há 45 anos. Ele tinha como meta ser o maior tocador de gaita oito baixo da região.
Somente tocar gaita... ganhar a vida gaiteando! dizia.
Aprendeu a mexer com o instrumento com mestre Ortiga, consagrado como um dos maiores tocadores do Rio Grande do Sul. Zé da Gaitinha começou a sentir atração pelo instrumento quando pela primeira vez viu mestre Ortiga tocar na famosa Banda Harmônica Santa Luzia de São Sepé, conhecida como furiosa.
Além de orgulhar-se muito de sua cidade natal, São Sepé nome tirado do índio charrua Sepé Tiarajú das Missões, que virou santo para a gauchada Zé da Gaitinha chegava a ser chato quando falava de sua intenção de tocar na Banda de São Sepé.
A banda era uma espécie de termômetro da cidade e servia para registrar as tristezas e as desgraças de seu povo. Acompanhava enterro, procissão, desfile de colégios. Chegava até a animar festas de casamento e tocar na zona, usando, é claro, o nome de Conjunto do Sepé.
Apesar de ser obsecado pelo instrumento não tinha vez para tocar na banda. O titular da gaita era o Amarante, filho do velho Ortiga, que além de ser alto, garboso e sorridente tinha um estilo especial de tocar.
Ele toca com a alma. De uma milonga missioneira ele é capaz de encontrar o ritmo de um tango meloso e rasgado afirmava o regente da banda, seu Gervásio Chevarrya, que apelidou Amarante de Mão Santa.
Quando toca parece que toca na gente dizia arrepiada a sensual Maria Arcádia Dorneles, filha do eterno prefeito e chefe político de São Sepé.
Tudo isso pertubava Zé da Gaitinha, que era baixo, com uma perna mais curta do que a outra. Pelas agruras da vida vivia sério e triste, pois sabia que tocava bem e por causa de Mão Santa nunca seria lembrado para tocar na banda. Apesar de tudo isso era o mais assíduo frequentador dos ensaios da furiosa. Foi em um destes ensaios que apareceu o comprador de arroz e produtor de shows de Londrina, Setembrino Bastos. Ele ficou encantado com a apresentação da banda e na mesma noite prometeu contratá-la definitivamente e trazê-la para a Capital do Café. Bastos era um entusiasta londrinense e dizia que sua terra natal era a mais bela da terra.
Setembrino revelou-se um homem de fazer negócios rápidos, pois iria a cavalo até a fazenda do Coronel Dóca comprar arroz e voltaria no dia seguinte para partir de trem para o Paraná.
Primeiro vão os artistas da banda, depois de um tempo as suas família vão atrás esquematizou o londrinense.
O fato caiu como uma bomba em São Sepé, pois abria-se a esperança de se conhecer e viver em uma terra de sonhos e esperanças, onde rolava muito dinheiro. No entanto, a maior bomba caiu na manhã do dia seguinte, quando Mão Santa, num rompante de amor pela cidade, afirmou que jamais trocaria sua São Sepé por Londrina.
Zé da Gaitinha vibrou com a notícia e repetiu muitas vezes:
Chegou a minha vez!
Depois da boa noticía ele não parou mais de ir ao bar do Flores para ouvir as fofocas e saber se Mão Santa não havia voltado atrás. No início da tarde bateu na porta de sua casa o maestro Chevarrya. Fingindo surprêsa, Zé da Gaitinha perguntou o porquê da tão ilustre visita.
Esta é a sua oportunidade, rapaz. Como eu sei, você tem vontade de se dedicar exclusivamente à gaita e conhecer outras terras. Topa vir com a gente? indagou Chevarrarya.
A resposta veio de pronto:
Topo, sim senhor.
A dona Iduvirges, mãe de Zé da Gaitinha, chorou de tristeza pelo filho que partia, mas se consolou porque ele estava feliz. Depois da visita do maestro bateu ansiedade e expectativa em Zé da Gaitinha, que não via a hora de Setembrino retornar da fazenda do coronel.
O tocador estava sentado em frente da casa, na sombra de uma árvore, quando o sino da igreja badalou espaçadamente três vezes, avisando que alguém havia morrido na cidade.
A notícia se espalhou rapidamente por São Sepé. O cavalo do forasteiro havia rodado e ele caido de cabeça contra uma pedra.
Morreu que nem passarinho. Nem gemeu e nem sofreu declarou ao delegado o peão de confiança do coronel Dóca, Sebastião, que a pedido dele acompanhava Setembrino no seu retorno à cidade.
A tragédia tocou no coração dos sampenses. Tocou mais fundo na alma de Zé da Gaitinha, que viu cair por terra toda a sua esperança de sair de São Sepé e tocar na banda.
Um mês depois da morte do londrinense, Zé da Gaitinha faleceu. A banda acompanhou seu enterro. No cemitério daquela cidade, a esquerda de quem entra pelo portão principal, existe uma sepultura onde se lê:
Aqui jaz Zé da Gaitinha, que não tinha sorte. Morreu sem tocar na banda e sem conhecer Londrina.
Segundo os familiares do morto, que ainda vivem em São Sepé, foi ele mesmo quem escreveu a lápide antes de morrer de total tristeza.





