Zé Bigode votou, mas não gostou
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terça-feira, 08 de outubro de 2002
Benedito Teles<br>Equipe da Folha 
José Bigode, morador de Ibaiti desde que o povoado se chamava Barra Bonita, saiu cedo. Colocou a melhor roupa, a bota mais lustrosa e montou Cabelo, o melhor cavalo de seu sítio. Pegou o filho mais novo e a galope ou no trote foi para a cidade. Cabelo não se descuidava da documentação colocada, cuidadosamente, em sua algibeira. Enquanto cortava os patrimônios e pastos da região, o caboclo lembrou de quando era um menino. Um menino miúdo nas Minas Gerais.
Ele lembrou que na década de 50 foi, pela primeira vez, acompanhar uma votação. Apesar da pouca idade, cerca de 5 anos, foi levado pelo seu pai. Ele lembrou, como poucos, que os colonos ficavam às margens da estrada de terra no lugar combinado com o capataz. Em suas lembranças, compadres, comadres, amigos e conhecidos iam se reunindo vagarosamente até que um grupo razoável de eleitores estava formado.
Nesse momento um caminhão encostava e um homem que informava o nome do candidato descia com as orientações. Os homens e mulheres subiam no caminhão e se acomodavam durante a viagem. Enquanto galopava Bigode parecia sorrir. Ele também se lembrou que todos eram encaminhados para o local de votação e sem perguntar, sem sequer entender, votavam em alguém.
Então começava a peregrinação e durante todo o dia os eleitores aguardavam o momento de votar. No início da noite, com fome e cansado, o pai de Bigode o colocou nos braços e subiu, novamente, no caminhão. A dupla voltou sem saber em quem tinha votado. Aliás, isto não importava. Assim como não importava para ninguém. Havia um pacto sinistro. O pai de Bigode não sabia em quem votava e o coronel que recebia o voto não sabia quem era o povo de Bigode.
Nisto Bigode chegou ao local de votação. Era um colégio no centro da cidade. Não tinha dúvidas que novamente poderia votar. Tirou o filho da garupa da montaria e foi para a seção. Na proporção em que caminhava percebia que a história se repetia, só que no lugar de coronéis existiam candidatos; no lugar de capatazes havia cabos eleitorais. No lugar de cabresto havia desinformação.
O povo todo conhecido de Bigode continuava parado em intermináveis filas e os nomes eram passados por escrito. Dona Maria, a Noca do Paraíso, o Jessé do Areião, o Pedrão, todos ainda estavam lá. Não sabiam o que faziam, nem sequer em quem votavam. Apesar dos coronéis, as filas eram enormes, mas não o suficiente para aplacar a voracidade dos cabos eleitorais. Vestidos de todas as cores e de todos os partidos eles se precipitavam sobre os eleitores. Tinham nas mãos os populares ''santinhos''. A diferença, agora, é que os pequenos papéis vinham na forma de uma versão mais moderna, as chamadas ''colas''.


