Telma Elorza
De Londrina

Mário Cesar




Em agosto passado, depois de passar praticamente um ano recusando a honraria, seo José Ambrósio Filho, 70 anos, foi finalmente convencido pela esposa, filhas e amigos. Vestiu sua melhor roupa e foi até a Câmara de Vereadores de Londrina receber o Diploma de Reconhecimento Público. A homenagem, iniciativa do vereador Orlando Bonilha (PDT), foi concedida pelos serviços prestados nos anos que atuou como guarda-campo do Aeroporto de Londrina. ‘‘Eu não queria ir, achava que era bobagem, que não precisava nada disso. Mas fui e acabei gostando. Me senti gratificado’’, diz.
Seo Ambrósio, como é conhecido, se aposentou há nove anos de um trabalho que, embora pouco conhecido, foi muito importante para o desenvolvimento de Londrina. Ele foi o responsável pelo perfeito funcionamento do aeroporto, desde a época em que isto podia ser considerado quase um milagre. ‘‘O aeroporto ficava no meio dos cafezais e, quando chovia, a pista virava lama. Não tinha cerca, nem nada. O único gerador só dava para manter o rádio funcionando. Se faltava luz, que era comum na época, o resto ficava tudo no escuro’’, lembra. Como guarda-campo, era o responsável pela manutenção da pista e abastecimento dos aviões militares, entre muitas outras coisas.
Seo Ambrósio nasceu em Cafelândia, uma pequena cidade do interior de São Paulo, mas cresceu na cidade vizinha de Lins, onde teve o primeiro contato com a aviação. ‘‘Parece que era meu destino. Um dia, o brigadeiro Eduardo Gomes estava na cidade, em campanha eleitoral, e eu fui escalado para buscar o bolo que seria leiloado para arrecadar fundos. Nem imaginava que iria depois estar sempre em contato com ele, quando passava por Londrina’’, lembra.
A mudança para Londrina, em outubro de 1951, veio logo após o casamento com Maria da Glória. Ele tinha 22 anos, ela 18. ‘‘Os pais dela vieram para cá e a gente resolveu tentar a sorte’’, conta. Na cidade, o jovem Ambrósio foi trabalhar em uma fábrica de refrigerantes, como vendedor. Ficou no emprego apenas três meses. ‘‘Desisti depois de uma viagem para Paranavaí. De Londrina até lá, levei oito dias para chegar’’, lembra. Em 52, arrumou o primeiro emprego no aerporto, na abastecedora da Shell. ‘‘Aí cai na bobeira de ir colher café em um sítio perto. Fiquei um ano e nunca mais quis saber disso’’, conta. Na volta, conseguiu um emprego no então Departamento de Obras da Prefeitura de Londrina. ‘‘Assentei muito meio-fio na cidade. Da JK até o Bosque, fui eu quem plantei todas as árvores da Rio de Janeiro’’, orgulha-se.
Quando descobriram que ele já havia trabalhado na área de abastecimento de aviões, foi então designado para assumir a função de guarda-campo do recém-construído Aeroporto de Londrina. Em meados de 54, começou na nova função. ‘‘O guarda-campo não é vigia. É um posto militar mas ocupado por civil. Eu era funcionário da prefeitura mas recebia ordens da FAB (Força Áerea Brasileira). Um povo muito bom, que sempre me tratou bem ’’, elogia.

Mário Cesar


No começo, seo Ambrósio cuidava apenas dos aviões militares que passavam por aqui. Eram muitos. ‘‘Estavam abrindo a região, então tinha muito avião militar sobrevoando a área. Quando chegavam depois do escurecer, eu tinha que acender toda pista com lampiões a querosene’’, conta. Mas também não se negava a fazer outros tipos de manutenção. Na época, isto era necessário: até 1960, quem cuidava do aeroporto de Londrina era a 4ª Zona Aérea, com sede em São Paulo. Depois, passou para a 5ª Zona Aérea, de Porto Alegre. Três anos depois de assumir o posto, seo Ambrósio – que nunca foi de ficar acomodado – resolveu fazer o curso de eletricista no Senai. ‘‘A partir daí, comecei a cuidar de toda esta parte também’’, diz.
Em 1960, ele, a mulher e as quatro filhas mudaram-se para uma casinha dentro do aeroporto, no terreno da FAB e perto dos galpões na cabeceira da pista. ‘‘Aquilo era um colonião, não tinha nada. Onde hoje é o Albatroz, era tudo cafezal’’, aponta a esposa, dona Maria da Glória. ‘‘Ali nós fizemos uma chácara, plantamos abacate, batata, cana, laranja, fizemos 500 covas de banana...’’, recorda dona Maria. ‘‘Fui eu e a mulher que fizemos quatro postes e puxamos luz da estação de passageiros até em casa’’, lembra seo Ambrósio. Só foram se livrar um pouco do barro perto da casa quando a pista de pouso foi asfaltada. ‘‘Como sobrou um pouco de asfalto, eu pedi para eles jogarem aqui em volta.’’
Seo Ambrósio trabalhou no aeroporto de 1954 a 90. Viu passar muitos administradores, viu a Infraero assumir, viu a história ser feita. Mas não esquece nunca os primeiros tempos, quando as condições eram as mais precárias possíveis. ‘‘O aeroporto não tinha nada, nem cerca. A gente tinha que ficar de olho para que as pessoas e os animais dos sítios ao redor não ficassem transitando por ali, o que era comum. As pessoas não entendiam o perigo que tinha de estar passando por ali e, de repente, descer um avião.’’
Ele nunca vai esquecer, por exemplo, o susto que levou ao ver um funeral, um dia, por lá. ‘‘Eu estava na torre e alguém disse: Zé, que é aquilo que vem vindo lá? Eu peguei um binóculo e quase caí de costas. O povo estava trazendo o caixão bem no meio da pista.’’ Seo Ambrósio, lógico, teve que correr até lá para ver o que estava acontecendo. ‘‘O problema é que tinha chovido durante toda a semana e as estradas dos sítios estavam um barro só. Então o povo resolveu passar por onde não tinha barro, a pista.’’ Embora as ordens de seo Ambrósio fossem de que ninguém ficasse no local, desta vez ele próprio cedeu. ‘‘Eu sabia que não ia pousar nenhum avião. Assim, acompanhei-os em silêncio até a saída’’, recorda.
Vacas, cavalos e cachorros transitando por ali era muito comum, tanto que os dois cachorros de seo Ambrósio – de tanto ver o dono – ficaram treinados para ‘‘tocar’’ os animais. O que foi fora do normal, porém, foi ver uma noiva, toda paramentada, andando sozinha pela pista e balançando ameaçadoramente um pedaço de madeira. E lá vai seo Ambrósio – ou como era mais chamado naquela época, o Zé Guarda-Campo – correr para acudí-la. ‘‘A mulher estava fora de si, transtornada. Até hoje não sei de onde ela surgiu nem para onde foi. Queria quebrar tudo. Com muito custo, consegui tirá-la dali. Depois fiquei sabendo que ela quebrou uma loja que vendia santos no centro da cidade.’’
Mário CesarLEMBRANÇAJosé Ambrósio Filho, o Zé Guarda-Campo: ‘‘O aeroporto ficava no meio dos cafezais e, quando chovia, a pista virava lama’’
Outra coisa que não esquece – embora não por gosto – foram os acidentes aéreos. Em todo o tempo que ficou no emprego, seo Ambrósio viu três com vítimas fatais. ‘‘O pior foi o primeiro, no começo da década de 70, quando o avião caiu onde era o horto florestal, do lado do HU. Foram 23 pessoas mortas. Fiquei três dias sem comer e sem dormir direito.’’
Cerca de 15 dias depois da tragédia, veio a segunda. Um pequeno avião de treinamento caiu em uma casa no bairro, matando duas pessoas. ‘‘As vítimas estavam no avião. Com a graça de Deus, ninguém da casa ficou ferido.’’ O terceiro acidente, porém, foi o mais traumatizante para a família de seo Ambrósio. ‘‘Foi na década de 80 e minha mulher e filhas viram o avião do Aeroclube cair e pegar fogo, na cabeceira da pista.’’ Dona Maria lembra: ‘‘A gente chegou e não pode fazer nada porque as chamas estavam altas. A gente viu o piloto ser consumido, ali, se debatendo e não podia acudir’’.
O tempo passou, a idade chegou, a aposentadoria veio. Hoje, seo Ambrósio trabalha como eletricista autônomo. Nunca vai esquecer a carreira que lhe rendeu a homenagem da Câmara. Mas não sente saudades. ‘‘Aqueles tempos foram bons. A gente era jovem, disposto a se matar de trabalhar. Mas hoje, não sei... acho hoje que é melhor.’’

O paulista José Ambrósio Filho, 70 anos, recebeu recentemente uma homenagem da Câmara de Vereadores de Londrina – o Diploma de Reconhecimento Público – por serviços prestados, depois de relutar por muito tempo. Animado e forte aos 70 anos, seo Ambrósio justifica: ‘‘Eu não queria ir, achava que era bobagem, que não precisava nada disso. Mas fui e acabei gostando. Me senti gratificado.’’ É que, para seo Ambrósio, o que importa é ainda ter saúde para continuar trabalhando como eletricista. Mas a homenagem foi justa. Por décadas, seo Ambrósio foi conhecido pelos colegas como Zé Guarda-Campo e com seu trabalho no Aeroporto de Londrina, ajudou a construir a história da Cidade.

PERFIL
Nome: José Ambrósio Filho
Idade: 70 anos
Profissão: aposentado como guarda-campo e eletricista
Hobby: ler a Bíblia
Sonho: ‘‘Gostaria de conhecer o Nordeste. Mas como não vai dar mesmo, é só um sonho’’
Lição de vida: ‘‘Nunca recusei trabalho’’

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