Mário de Proença Zacarias, 44 anos, conhece a cidade de ponta a ponta. Há quase 18 anos trabalhando como motorista de ônibus, não tem linha que ele já não tenha feito. Em todas elas fez amizades e guarda boas recordações. Embora ainda trabalhe como motorista, Mário Zacarias hoje está na reserva, o que numa empresa de ônibus significa ser o ‘pau para toda obra’.
Ele fica a postos para o caso de algum colega faltar ao trabalho, quando, então, tem que assumir o volante para não deixar passageiros esperando no ponto. Quando todas as escalas são cobertas, ele trabalha nos serviços internos da empresa. Se hoje o serviço pode ser considerado um pouco mais tranquilo, o começo de Mário Zacarias como motorista não foi lá muito fácil.
‘‘Eu costumo falar para os que estão começando agora que eles não sabem o que é dificuldade. Quando comecei como motorista eram poucos os ônibus com direção hidráulica. O volante era duro e tinha que ter força. Em algumas ruas a gente tinha que manobrar o ônibus para entrar, porque o volante não virava o suficiente. Era o que a gente chamava de ônibus queixo duro’’, conta.
Nesses anos todos como motorista, Zacarias conta com orgulho que nunca teve problemas com passageiros. ‘‘Lembro-me que a maioria não gostava de fazer a linha do Jardim União da Vitória, porque era só terra. Eu gostava da linha e não queria sair. Fiquei nela por um ano e quatro meses e me dei muito bem com aquele pessoal.’
Para Zacarias, a fórmula para trabalhar em paz com os passageiros é o respeito e a gentileza. Ele ressalta que o motorista tem que ser gentil, ajudar os mais idosos e deficientes a descerem do ônibus e, quando necessário, também parar fora do ponto. ‘‘Às vezes o passageiro vem correndo e não consegue chegar a tempo. Acho que não tem problema nenhum, neste caso, parar para ele subir. Isso faz com eles fiquem satisfeitos’’, prega.
Desde 1980, quando começou a trabalhar na Grande Londrina, Zacarias sempre fez o primeiro horário, pegando o volante às 5 horas da manhã. Para estar no trabalho na hora certa, há quase 18 anos ele se levanta às 3h30 da madrugada. E não reclama. Já está tão acostumado que acorda antes do relógio despertar. ‘‘É difícil ele me acordar.’ Para estar inteiro todos os dias, costuma ir para a cama cedo, logo depois de assistir ao Jornal Nacional.
Devido ao horário, a vida social de Zacarias fica um pouco comprometida. ‘‘Ir a casamento ou aniversário, só se tiver de folga no dia seguinte ou se for convidado com antecedência, para poder mudar o dia de folga.’ Apesar das dificuldades, mudar de horário nem passa pela cabeça de Zacarias. Ele está tão acostumado a entrar cedo que, quando acontece de ter de entrar um pouco mais tarde no serviço, perde a hora. ‘‘Já me aconteceu isso.’
Por trabalhar no horário da manhã, Mário Zacarias levou, pelo menos, uma grande vantagem: não ter que enfrentar o que na gíria dos motoristas é chamado de ‘‘passageiro fim de festa’’. São os passageiros embriagados que voltam para casa de madrugada, infernizando a vida dos motoristas. ‘‘Para mim não tem passageiro mais chato que o bêbado. Ele põe uma coisa na cabeça e não tem quem tira. Comigo não aconteceu de pegar um desses, mas os colegas da noite reclamam bastante.’
Andando tantos anos pelas ruas da cidade, Zacarias já viu muitas transformações pelos bairros. Asfalto chegando em muitas ruas, prédios sendo levantados, etc. Mas não foi só como motorista que ele acompanhou as transformações de Londrina.
Quando chegou na cidade, em 1974, então com 20 anos, vindo de Congoinhas (55 quilômetros ao sul de Cornélio Procópio), Mário Zacarias foi trabalhar como ajudante de fiandeiro, na indústria de tecelagem Velnac. De lá, foi trabalhar como motorista de uma construtora, fazendo parte da equipe que construiu a via Expressa.
‘‘Toda a região da Via Expressa era um barro só, um banhadão. Quando ficou pronta a avenida, a cidade apareceu. Antes o pessoal do Califórnia, por exemplo, não conseguia atravessar o banhado. Alguns bairros ficavam isolados.’ Na mesma construtora - a Enorpa - ajudou também a construir o Estádio do Café.
Foi ainda trabalhando na área de construção, desta vez com a extinta construtora Farid Surugi, que Mário Zacarias viu nascer os na época conhecido como conjunto Inocop. Só saiu da firma quando ela faliu. ‘‘Eu fiquei responsável por encerrar as atividades da construtora. Acertei com os funcionários e eu mesmo tive que me demitir, dando baixa na minha carteira’’, conta.
Depois de oito meses desempregado, ele conseguiu o emprego como motorista de ônibus, no qual pretende se aposentar. Na Grande Londrina, ele deixou de exercer a função de motorista apenas de 86 a 88, quando se tornou fiscal. Lá também se envolveu nas ações da Associação dos Funcionários da Grande Londrina, em que já passou por vários cargos. Hoje, exerce a presidência pela terceira vez e concorre à reeleição. Foi na empresa que também conheceu sua esposa, que trabalhava como cobradora de ônibus.
Aposentar-se não significa, para Zacarias - que já tem três filhos adultos -, parar de produzir. Ele tem um sonho que pretende realizar tão logo deixe de trabalhar: voltar a estudar e fazer o curso de direito. ‘‘Na minha família todos os irmãos fizeram faculdade e eu também vou fazer. Até hoje não tive oportunidade por causa da escala de trabalho. Mas ainda vou conseguir.’ Se depender de exemplo, ele pode se considerar um futuro advogado. A mãe dele, com 65, voltou a estudar e está cursando a 5ª série do primeiro grau.


PERFIL
Nome: Mário Proença Zacarias
Idade: 44 anos
Profissão: motorista
Local de trabalho: Grande Londrina
Tempo de profissão: 18 anos
Sonho: ser advogado

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