Londrina tem uma peculiaridade. No bosque central, galos e galinhas ciscam à vontade emprestando ao lugar um clima rural que o resto da cidade perdeu há muito tempo. Conheço pessoas que se envergonham dos galos. Preferem os pandas da China ou os esquilos de Nova York que encantam turistas com seus rabos compridos, os olhos espertos, fazendo do Central Park um cenário de Disney. Aos descontentes retruco sempre a favor dos galos. Não os considero caipiras, com suas penas coloridas, as cristas imitando antenas que se mexem toda vez que o bicho-homem passa por perto.
Dizem que os galos não gostam de dividir o terreiro. Mas os do bosque central convivem democraticamente, às vezes cantando em uníssono, às vezes discutindo em cocoricó, uma língua direta e muito eficiente. Outro dia peguei um trecho de conversa: ‘‘Co-corra aqui se for homem’’, desafiava um garnizé. E o outro respondia: ‘‘Co-como? Nesta chuva, se co-corro caio e prejudico minha imagem perante o galinheiro.’’ ‘‘Co-covarde’’, sentenciou o primeiro. E saiu batendo esporas e sacudindo as penas.
O que estranho, no Bosque, é o número reduzido de galinhas. Fora as habitués com os pintinhos sempre pendurados à ‘‘barra’’ das suas asas, a população das fêmeas não tem crescido. Só consigo contar umas oito que correm para o mesmo lado, protegendo os filhotes em caso de perigo. Fico pensando se, nestes tempos bicudos, as galinhas do Bosque não têm virado canja. Afinal, quem vai querer cozinhar um galo? Este bicho durão que para ser transformado em molho requer a experiência de um grande cozinheiro.
Como cantores, os galos têm muitas finalidades. Se no poema de João Cabral de Melo Neto eles tecem as madrugadas, no Bosque de Londrina eles tecem o dia-a-dia de modo original e muito curioso. Ainda em janeiro, um turista americano, de máquina em punho, gastou um filme inteirinho para voltar à sua terra com uma boa lembrança dos galos. Para o ‘‘gringo’’, eles faziam pose desafiando com graça o garbo cinematográfico daqueles esquilos do Norte metidos à besta.

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