Xô solidão!
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
Mariana Guerin<br> Reportagem Local 
Você pode estar em meio a uma multidão e senti-la. Pode ter perdido um parente, um amigo, um amor, e ela pode chegar de mansinho e ficar por um tempo. Ter apenas ela como companhia num sábado à noite. Ou você também pode simplesmente se adequar a ela, praticando as mais variadas atividades e se cercando de pessoas: estar só não significa ser só e quem aprende a lidar com os prós e contras da solidão certamente é alguém mais feliz.
Ignez Vidotti tem 64 anos, nunca se casou, vive sozinha em Londrina, longe da família, que mora no interior de São Paulo, e se aposentou recentemente. Juntas, a solteirice e a aposentadoria seriam motivos mais do que suficientes para ela experimentar solidão, mas não, o talento para ajudar o próximo sempre bateu mais forte no coração da assistente social de profissão e vocação.
Ela é voluntária do Clube das Mães Unidas, onde trabalha com crianças de famílias carentes da Zona Leste de Londrina. Também ocupa o tempo com as flores e verduras que adora cultivar e tem a espiritualidade bastante desenvolvida, presidindo um centro espírita da cidade. ''Sou muito atrelada ao trabalho, à religião, também adoro ler e são raras as vezes em que fico em casa o dia todo'', descreve Ignez, que não se considera solitária.
''O único inconveniente é quando fico doente, mas tenho muitos amigos à disposição para me ajudar'', diz a assistente social, garantindo que prefere ser solteira: ''Não teria condições de viver com outra pessoa, não gosto de ser dona de casa'', justifica. Para ela, sem uma profissão, a vida teria sido mais difícil. ''Mas sempre tive uma vida ativa e conservei os amigos.''
Segundo Ignez, a saída para driblar a solidão é nunca se fechar para o mundo: ''Desenvolver a parte espiritual, cultivar os amigos e trabalhar sempre é essencial para ter segurança emocional e não entrar em crise'', ensina.
Afeto
Conforme a psicóloga Maria Luiza Marinho Casanova, doutora em análise do comportamento, uma pessoa pode escolher ficar só e ainda assim não se sentir solitária. ''Solidão é um sentimento que surge quando o indivíduo tem pouco contato de qualidade e precisa de afeto'', define.
Na ânsia de suprir esta necessidade, as pessoas, hoje, se entregam a relações fúteis, em que o tempo de interação é mínimo. ''É daí que vem o termo 'só na multidão', a pessoa pode estar cercada de gente, mas não tem ninguém com quem tem intimidade. É preciso tempo para que um sentimento se torne recíproco.'' Segundo Maria Luiza, idosos e jovens que apenas terminaram a faculdade são os grupos mais suscetíveis a sentir solidão, principalmente se não possuem amigos íntimos ou não estão num relacionamento afetivo.
Pessoas muito tímidas ou que possuem poucas habilidades sociais também podem experimentar solidão, mas nestes casos, a terapia é capaz de melhorar a qualidade de vida do indivíduo. ''Tem quem não baixa a guarda, vivendo sempre relacionamentos superficiais'', completa a psicóloga, citando casos em que o solitário odeia os fins de semana, pois não tem com quem sair ou conversar.


