Xampu não causou doença de garoto
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quinta-feira, 02 de julho de 1998
Anna Camanducaia 
Os médicos que cuidam de Everton Almeida Rocha, 12 anos - intoxicado pelo xampu contra piolho Karatê Mata Já - ainda não chegaram a um diagnóstico. Everton foi internado no Hospital do Trabalhador no dia 2 de junho e transferido para o Hospital de Clínicas no dia 18. Ontem, fez um mês que Everton está hospitalizado.
O HC não deu informações sobre o caso, mas a mãe Zilma Rodrigues, 31 anos, disse que Everton foi internado por causa da intoxicação, mas hoje o motivo de estar no hospital é outro, que ainda não foi descoberto. O problema é na medula.
Zilma diz que o filho estava bem antes de usar o xampu. Depois disso, veio uma espécie de gripe e febre de 40 graus. Ela o levou ao hospital municipal de São José dos Pinhais e, depois, ao Hospital do Trabalhador. Outros dois filhos de Zilma que usaram o mesmo produto não tiveram problemas.
O pediatra Luiz Ernesto Pujol, que cuidou de Everton no Hospital do Trabalhador, disse que não sabe se a intoxicação pelo xampu causou a septicemia (infecção disseminada por todos os órgãos), que Everton apresentava quando foi internado, ou se a infecção já existia e piorou por causa da intoxicação.
Zilma disse que o filho parece bem, mas está fraco. Ele já esteve muito ruim, achei até que não ia aguentar, disse. Hoje, ele só quer ir embora, não aguenta mais ver enfermeira.
Desde que Everton foi internado, a vida da família mudou completamente. Zilma abandonou o emprego de diarista para cuidar do filho. No Hospital do Trabalhador, chegou a ficar oito dias sem ir para casa. Hoje, chega ao HC por volta das 8h30 e vai embora às 18h30, já que não pode dormir no hospital. Mal vê os outros filhos: Fabio, 13 anos, Bruno, 6 anos, e Daiane, 4 anos. O marido Dirceu Rocha, 34 anos, tirou férias para poder ajudar Zilma.
A chefe da Vigilância Sanitária de São José dos Pinhais, Ana Maria Araújo Barbosa, alerta que remédio contra piolho se compra na farmácia, e não em mercearia ou supermercado.
Zilma disse que comprou o xampu porque uma vizinha o usava na filha. O Karatê Mata Já não tem registro e não apresenta em sua embalagem o nome do fabricante, o local de fabricação, a data de validade e o responsável técnico. A embalagem também não tem um padrão, o que indica fabricação caseira. O produto matava piolho, pulga, pernilongo, cupim, barata, aranha, barata e rato. Isso quer dizer que ele era um agrotóxico, disse Ana Maria.
Unidades do Karatê Mata Já foram apreendidas pela Vigilância Sanitária de São José dos Pinhais. O fabricante do produto seria Ronaldo Fratti - nome falso, segundo a Vigilância. Segundo Ana Maria, ele já não estaria mais morando em São José dos Pinhais. Quem quiser denunciá-lo, mesmo de forma anônima, pode ligar para 282-4455.


