Walter queria um bosque
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quinta-feira, 01 de agosto de 2002
Phoenix Finardi<br> Reportagem Local 
Descendente de agricultores, Walter tinha um sonho: queria plantar um bosque. Os avós venderam as terras e vieram para a cidade para dar uma ''vida melhor'' para os filhos. Foi uma dureza! Trocar a casa grande pelo aperto, o silêncio pelo barulho, a fartura pelo quilo mal pesado. Mas enfim, essa é a história da maioria dos londrinenses.
Walter já nasceu na cidade, em casa com geladeira e, mais tarde, televisão. Não tinha nada que viver sonhando com a vida rural. Mas vivia. Qualquer cantinho de terra da casa e lá estava ele, plantando alguma coisa. Cultivou salsinha e cebolinha verde em embalagens de sorvete! Plantou abacaxi e plantas medicinais num canteiro estreito na porta da cozinha. Com o tempo, foi ficando mais ousado. Plantou um abacateiro no vaso, depois uma jabuticabeira, um pé de lixia e até castanha do pará. Na mão dele, qualquer semente virava verde.
Pois bem, acontece que Walter queria mesmo era um bosque. Morador de um bairro da zona norte, ele começou a ''esticar o olho'' para um enorme terreno baldio na frente da casa dele. Foi se informar era do Estado, separado para a construção de uma escola. Pena. Entre bosque e escola, é claro que a escola ganhava. Mas, enquanto a escola não saía, ele resolveu aproveitar um pedacinho do terreno. Primeiro foram os pés de mandioca, depois espinafre, abobrinhas e até açafrão. O vizinho gostou e colaborou com um pé de jambo e uma romãzeira. O xodó deles era uma mangueira grande, que estava ali há anos.
A história poderia ter tido um final feliz se o bairro não fosse crescendo, o fundo de vale invadido por várias famílias. Um dia a garotada descobriu a mangueira. Roubavam as frutas ainda verdes, quebravam os galhos e xingavam qualquer um que ousasse corrigi-los. Depois de muita briga e discussão, a mangueira foi cortada. As outras árvores e plantas foram seguindo o mesmo destino. Ficou só um capinzal alto, juntando bichos.
Um dia, Walter acordou decidido. Colocou a idéia do bosque no papel, fez um projeto bem feitinho, conversou com alguns moradores e com o pessoal da prefeitura. A sugestão foi recebida com ressalvas e desconfiança: as árvores poderiam virar esconderijo de bandidos, as folhas iriam fazer muita sujeira, quem iria cuidar daquilo tudo? E quando o Estado resolvesse construir a escola? Walter rasgou o projeto, desistiu do bosque e resolveu virar um cidadão urbano.
Teve outra idéia: transformar o terreno, onde o mato agora ia alto, num estacionamento. Desenhou a planta (colocou algumas árvores no projeto, só para não perder o costume), foi se informar na prefeitura. Descobriu que a idéia era impossível. O terreno era público, ninguém podia construir nada ali.
O mato está mais alto do que nunca. No centro do terreno há um monte de entulhos. Só uns cavalos, que ficam amarrados ali durante dias, aproveitam o espaço. É verdade que infestam o capinzal com carrapatos. Às vezes alguns moradores colocam fogo no lixo e durante algumas horas a paisagem fica escurecida.
Walter vem de vez em quando ao centro e fica sentado no Bosque. Olha as árvores em volta, sente o cheiro bom do verde e tenta ignorar o barulho dos carros, o apito do guarda. Dia desses, bateu umas fotos: ''Para mostrar para os meus netos, quando os prédios ocuparem o lugar das árvores''. Pelo jeito, não deve demorar muito.


