Vozes que emocionam
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 04 de dezembro de 2009
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 
As cantigas natalinas entoadas por 80 vozes infantis que se apresentaram na abertura da cantata de Natal de um shopping de Londrina deixaram emocionada a plateia que passeava pelo estabelecimento na semana passada. As histórias das crianças que integram o coral Sinfonia Universal, mantido pelo Centro de Educação Infantil (CEI) Irmãs de Betânia, localizado no Jardim Nossa Senhora da Paz (Zona Oeste), emocionam ainda mais. O coral apresenta-se novamente amanhã, às 18 horas.
Moradoras de um bairro estigmatizado pela violência do tráfico de drogas e da guerra entre gangues rivais, elas mostram, através da arte, que o desenvolvimento de talentos depende principalmente da oportunidade. Conforme a diretora da CEI, Dalva Regina Taniguchi, as atividades musicais começaram a ser oferecidas à comunidade em 2001. Além das aulas de canto, as crianças interessadas aprendem violino, flauta, teclado e violão.
''No início, o público ficava surpreso, achavam impossível que crianças de uma região tão carente fossem capazes de tocar violino. A partir de 2004 começou a aparecer com frequência nos jornais a divulgação de que no bairro existiam muitas coisas boas. Hoje o coral é bem conhecido'', contou, lembrando que os voluntários da creche realizam diversos projetos que atendem os alunos matriculados e as famílias. ''O objetivo é oferecer dignidade para que as pessoas tenham consciência de seus direitos e deveres, tornando-se capazes de desenvolver a cidadania.''
A estudante Helen Cristina de Oliveira, 15 anos, foi uma das primeiras a participar do projeto de música da CEI. Hoje, além de cantar no coral, ela dá aulas de violino a outras crianças. ''Depois que comecei a aprender música, fiz cursos em outros lugares, me especializei e hoje dou aulas particulares e também no projeto'', disse.
Para a adolescente, a música foi um ''divisor de águas'' na vida. ''Nunca imaginei me tornar professora. Passei a ter responsabilidade e me senti mais respeitada pelas pessoas de fora da comunidade. Minha visão sobre o mundo mudou completamente'', avaliou ela, que pretende fazer vestibular para Engenharia Civil - por gostar de matemática - e depois planeja fazer também a faculdade de Música. ''Música e matemática têm tudo a ver, porque as duas coisas exigem raciocínio.''
Tauane Fernandes Moura, 17, é prima de Helen e também atribui à educação musical a aquisição de novos horizontes. ''Nós moramos em bairros onde há muita violência. Através da música, passamos a querer algo mais e percebemos que existem pessoas dispostas a ajudar, que querem fazer o bem'', considerou ela, que toca violino, flauta, violão e ainda atua voluntariamente como auxiliar nas aulas de flauta.
Apesar de também querer estudar Engenharia Civil, a jovem não pretende abandonar a música. ''Tudo que aprendemos muda a nossa vida. No futuro, a música continuará sendo o meu hobby'', espera.
Veterana no coral da CEI, Larissa dos Santos, 13, percebeu que a música está em todos os lugares depois que começou a participar das aulas. E, graças à oportunidade de entrar em contato com a arte, pretende estudar Artes Cênicas. ''Faço curso de teatro na escola e gosto muito'', explicou.
A talentosa garota acredita que a música foi importante também para melhorar a auto-estima dos moradores do bairro. ''Já vi muita gente sofrer preconceito apenas por morar no conjunto Nossa Senhora da Paz. Hoje, graças às apresentações que fazemos, passamos a ser mais respeitados.''
Serviço - O coral Sifonia Universal se apresentará no Royal Plaza Shopping no dia 5, às 18 horas; no dia 11, às 19 horas; e no dia 16, às 19h30.
Quem quiser colaborar com a CEI Irmãs de Betânia, que precisa de recursos para construir uma sede própria, pode ligar para (43) 3338-5686.


