Um sentimento generalizado de otimismo tomou conta dos cerca de mil moradores do Heimtal, o primeiro patrimônio rural de Londrina, localizado na Zona Norte. No último final de semana funcionários da prefeitura concluíram o asfaltamento das ruas, que foi iniciado 2,5 anos atrás, dando a comerciantes e moradores a sensação de que estão vivendo o início de uma nova era.
''Nosso comércio está indo bem, temos uma boa clientela, mas as pessoas se queixavam muito da terra. Quando o clima estava seco, os funcionários molhavam constantemente para segurar um pouco o pó. Mas pior mesmo era o barro'', argumenta Reinhold Júlio Strass, proprietário do Restaurante Porco no Tacho e neto de Carlos João Strass, um dos primeiros alemães a chegar na região. Julinho, como é conhecido, diz que não se imagina morando em outro local que não seja o Heimtal, e que já se acostumou com o ar bucólico do lugar. ''Apesar da cidade estar cada vez mais próxima, a gente ainda acorda com passarinho cantando.''
Além do asfalto, outra transformação vem acontecendo no antigo patrimônio, com a instalação de restaurantes - já são quatro - que incluíram o local no roteiro gastronômico do município. Julinho é um dos empresários que, há mais de uma década, começaram a mudar o perfil do lugar. Hoje muitos londrinenses saem do Centro e de regiões mais distantes para saborear a comida típica do Heimtal. ''Nossa família era basicamente de agricultores, agora muitos estão no ramo de alimentação. Mas ainda falta incentivo para que as pessoas invistam mais nesta área'', diz.
O presidente da Associação de Moradores do Heimtal, José Roberto Machado, é um dos mais estusiasmados com o asfalto. ''Estamos vestindo o vovô de Londrina'', brinca, referindo-se ao ponto de origem do município. No mês de dezembro Londrina fez 72 anos, enquanto os registros da chegada dos pioneiros do patrimônio datam de 76 anos atrás. Foi lá, a 8 quilômetros de onde mais tarde seria o Centro de Londrina, que instalaram-se os primeiros sitiantes que adquiriram lotes da Companhia de Terras Norte do Paraná.
Machado informa que apesar de ser conhecido como patrimônio, o Heimtal, desde 1992, é classificado como bairro. ''Até dois anos atrás também se caracterizava como área de baixa densidade populacional. Conseguimos reverter isso e as melhorias estão chegando.'' O presidente da associação só lamenta que parte da população ainda não tenha se conscientizado da responsabilidade de cada um nestes novos tempos. ''Antes nossa briga era para conseguir o asfalto, agora a luta vai ser para a população cuidar das calçadas, que estão cobertas de mato e construir muretas para conter a terra que escorre dos terrenos quando chove, entupindo as bocas-de-lobo.''
Cerca de 40% do bairro é ocupado por terrenos vazios ou por plantações agrícolas, como feijão, mandioca, amendoim. ''Ainda tem esta mentalidade de patrimônio rural, mas aos poucos a gente vai arrumando'', afirma Machado, que sonha com a implantação de uma área industrial para a instalação de microempresas - como as marcenarias que hoje dividem espaço com as casas - e de um salão comunitário onde funcionariam cursos profissionalizantes na área de gastronomia, por exemplo. ''A maioria dos jovens daqui trabalha nas hortas e na lavoura. Os donos dos restaurantes são obrigados a contratar o pessoal que vem de outras regiões da cidade'', explica.
A zeladora da igrejinha do lugar - batizada de Capela de São Miguel Arcanjo -, Luzia Sória Batista, mora há 25 anos no Heimtal e anda atormentada com o resultado do progresso. ''Quando mudei para cá era um sossego, não tinha nem cerca em casa, só uns bambuzinhos. Também não tinha roubo na igreja. Agora a gente vive preocupada, no começo deste ano levaram todo o equipamento de som'', revela. Luzia mora em uma chácara a alguns passos do pequeno templo que foi tombado pelo Patrimônio Histórico. ''Cuido desta capela há uns 20 anos como se fosse minha casa. Agora ela está precisando de pintura, de uns reparos no forro, mas como é tombada a gente não pode mexer em nada. Estou lutando para ver se conseguimos.'' A capela azul que chama a atenção de quem passa pelo Heimtal pertence à Paróquia Jesus Cristo Libertador, do Conjunto Maria Cecília, e abriga missas somente nas noites de sábado.

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