Ouvir os seguidores de determinada doutrina ou religião dizerem ter recebido ''o chamado'' pode soar incomum aos leigos, em um primeiro momento, senão vago ou metafísico demais. A impressão logo se dissipa quando o chamado em questão faz o alvo deles largar uma vida regada a bens materiais e propósitos tão comuns quanto carreira, casamento e constituição de família, por exemplo, para se devotar a princípios de castidade, pobreza e obediência.
Essa é a linha adotada pelo grupo católico Toca de Assis - congregação formada sob o nome de Instituto de Vida Consagrada -, que reuniu pessoas das mais diferentes idades, ontem, em Londrina, no Ginásio de Esportes Moringão. O evento, batizado de LondriToca, foi realizado para comemorar os cinco anos da Toca em Londrina - o movimento surgiu em Campinas (SP), há 13 anos, e se espalhou pelo Brasil.
As atividades começaram de manhã, com adoração ao Santíssimo Sacramento, pregações, apresentações de teatro e dança e uma missa conduzida pelo padre Roberto Lettieri, fundador da Toca de Assis. A linha de ação do grupo - cujos integrantes fazem os votos de pobreza, castidade e obediência ao longo de cinco anos - se detém basicamente no atendimento a moradores de rua, ou ''irmãos de rua'', como preferem chamá-los.
Em Londrina, por exemplo, a equipe de 45 religiosos conta com três casas e duas chácaras não apenas para o abrigo deles próprios (uma das quais é de clausura), como para acolhimento do público-alvo. Só na casa do Bom Samaritano passam diariamente entre 30 e 40 pessoas por dia; na Casa São Pio, são 35 os moradores de rua acamados, além dos 30 acolhidos na Chácara Belém. Todas as unidades são abertas a visitas diárias.
Para o padre Roberto, não é por acaso que a maioria dos participantes da Toca de Assis - cujos nome e roupas dos membros são inspirados em São Francisco de Assis - é composta por jovens. ''Vivemos em um tempo em que a verdade é relativizada, em situações de contradições cada vez mais fortes. E ensinamos que não há liberdade sem Jesus, basta ver que nesse mundo tão hedonista, onde prevalecem sexo e dinheiro, o jovem ainda se sente vazio'', disse, para completar: ''Não apenas nos deparamos com altos índices de suicídio entre jovens da classe média alta como também vemos casos como os do Rio de Janeiro, em que um grupo de rapazes agrediu uma mulher. São exemplos de que esses jovens têm tudo, mas, na verdade, não têm nada, pois desconhecem o amor de Deus'', pregou.
Presente também ao Moringão, o bispo emérito de Londrina, dom Albano Cavallin, elogiou os princípios do grupo. ''Eles levam muito a sério o 'Amai-vos uns aos outros como eu vos amei', pedido por Jesus, pois recolhem os irmãos necessitados e os tratam como irmãos. E o mundo tem saudade das coisas bonitas, da bondade, da generosidade e da pureza dos gestos em meio a tanto realismo'', observou o bispo.
Na avaliação de dom Albano, contudo, ''falta apoio do poder público, em Londrina'', à iniciativa da Toca, que, na prática, acaba substituindo parte do atendimento que deveria ser prestado ao cidadão.
''Sei que em apenas uma casa servem 40 refeições ao dia, e tudo graças a doações. Em Curitiba, por exemplo, há esse apoio; seria preciso que o poder público aqui adivinhasse que quem faz o bem precisa também ser ajudado nessa missão'', sugeriu o bispo.
Em Londrina, interessados em ajudar a Toca de Assis podem fazê-lo pelo endereço Rua Hugo Cabral, 1.160, no Centro, ou pelos telefones (43) 3025-1090 ou 3027-1706.

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