Paulo WolfgangVontade de ajudarA dentista Gisele Barbosa, que atende gratuitamente em Centro Social: recuperação da filha motivou trabalho voluntário Dedicar horas ou dias de trabalho a pessoas carentes já faz parte do dia-a-dia de muitos profissionais de Londrina. São médicos, dentistas, psicólogos, cabeleireiros e outros que descobriram no trabalho voluntário - dentro da própria profissão - que ajudar pessoas necessitadas é uma via de mão dupla.
‘‘Nós não só ajudamos como também recebemos. O retorno que essas pessoas nos dão em forma de sinceridade, energia positiva e agradecimento nos faz muito bem’’, resume a dentista Gisele Campos Barbosa. Há cinco anos, ela presta atendimento gratuito na clínica mantida pelo Centro Social da Paróquia Coração de Maria (área central).
São muitos os motivos que levam os profissionais a dedicar parte do tempo ao trabalho voluntário. Para Gisele Barbosa, formada pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) em 1984, o Centro Social propiciou retorno à profissão. Ao mesmo tempo, ela procurava uma forma de retribuir a felicidade que sentia pela recuperação de uma de suas filhas. A criança teve dois problemas sérios de saúde num curto período de tempo. ‘‘Após a recuperação dela senti muita necessidade de ajudar as pessoas’’, conta Gisele.
Foi quando o padre Írio Luiz Rissi, idealizador do projeto do Centro Social, a convidou para prestar serviço gratuito na igreja. Gisele já frequentava a paróquia e, segundo conta, o padre sabia que ela era dentista e estava afastada da profissão.
Paulo WolfgangGratificanteAlexandre em atendimento odontológico: ‘Saio daqui mais feliz’
Na época, seus três filhos eram pequenos. Conciliar trabalho e administração da casa foi uma tarefa difícil para ela. Gisele ficou seis anos sem trabalhar fora. ‘‘No fundo foi uma ajuda mútua. Estava parada há muito tempo e o trabalho no Centro foi um aprendizado. Se tivesse meu consultório, prestaria atendimento lá. Como não tenho, aqui encontro uma forma de retribuir as graças que já tive na vida.’’ Além de prestar o trabalho voluntário, Gisele agora trabalha como dentista numa empresa da Cidade.
O dentista Alexandre Luiz Kretsch Peixoto, 24 anos, é o mais novo voluntário do Centro Centro Social da Paróquia Coração de Maria. Ele começou o trabalho na sexta-feira da semana passada. Ele teve a idéia de atuar voluntariamente já no primeiro ano de odontologia na UEL.
‘‘Certa vez precisei de uma arcada completa para fazer um trabalho de escola e fui até o Centro Social. Conheci o trabalho deles e pensei comigo mesmo que depois de formado iria ajudar pessoas carentes.’’ Alexandre se formou há um ano, tem seu próprio consultório, mas todas as quartas e sextas-feiras à tarde trabalha para pessoas que nunca poderiam pagar pelo serviço particular. Ele ressalta que seus clientes ainda não são muitos devido ao pouco tempo de profissão, sobrando tempo para poder trabalhar gratuitamente.
Membro do movimento carismático da Igreja Católica, Alexandre diz ter consciência de que a odontologia não é acessível a todos os cidadãos. ‘‘Nós temos o conhecimento, a igreja fornece a infra-estrutura. Me sinto muito feliz em ceder minha mão-de-obra. É gratificante poder ajudar cada pessoa a ter saúde bucal. Certamente, quando saio daqui, saio mais feliz.’’
A psicóloga Milena Vicari Crastelo, 25 anos, se formou há um ano. Sem conseguir emprego remunerado no mercado de trabalho e ansiosa para colocar em prática tudo que tinha aprendido, ela decidiu procurar o Centro Social para uma troca de experiências. ‘‘Sentia um desejo enorme de atuar em clínica e estou tendo esta oportunidade.’’
Ela presta atendimento às terças o dia todo e às quartas-feiras pela manhã. Milena diz que já havia tentado iniciar o trabalho voluntário no Centro em meados do ano passado, mas não havia horário vago para atuação profissional. Este ano, ela assumiu os pacientes de uma amiga, que atendia no Centro mas foi embora de Londrina. ‘‘A ajuda é mútua. Posso colaborar com os pacientes até onde eles permitirem. Já para mim, a experiência é muito rica, principalmente porque faço especialização em psicanálise.’’
Um drama pessoal levou a também psicóloga Irene Palmira Covino Diamante, 39 anos, a se envolver com trabalho voluntário e mudar o rumo de sua vida. Ela estava afastada da profissão há alguns anos, quando passou por uma depressão que classifica como profunda. ‘‘O que me curou foram as orações. Daí deixei a ciência dos homens e passei a seguir a Ciência de Deus.’’
Após se recuperar da depressão, Irene decidiu ajudar outras pessoas com problemas emocionais e passou a ser orientadora espiritual em igrejas. ‘‘Hoje atendo de cinco a seis pessoas por dia. Todos os dias trabalho com isso e me sinto realizada. Aprendo mais e mais a cada dia que passa. Com isso, sinto que há um processo de aprofundamento em sabedoria, discernimento, ciência, inteligência. Poder ajudar é uma benção para mim.’’
A cabeleireira Carmem Passucci fazia trabalhos voluntários esporadicamente. ‘‘Cortava cabelos de pessoas doentes e não cobrava nada. Fazia com prazer.’’ Mas um dia recebeu um convite que, confessa ela, mudou sua vida. Um amigo lhe propôs participar de um projeto desenvolvido no Conjunto União da Vitória, zona sul de Londrina, onde vai com a filha Cleondes Akiko Oda, uma vez por mês. ‘‘Minha filha vai com mais regularidade’’, diz.
Há três anos elas participam do projeto e cortam, a cada visita, até 50 cabelos. ‘‘A maioria das pessoas que atendemos são crianças muito carentes. Nesse tempo todo acho que aprendi a ser humilde. É muito gratificante porque tudo que a gente faz de caridade retorna para a gente, faz nossa vida melhor. Se eu deixasse o trabalho voluntário, me faria muita falta.’’
O Centro de Assistência da Paróquia Coração de Maria foi criado em 1990. No início, funcionava numa casa de madeira ao lado da igreja, mas por causa da demanda foi transferido para as instalações da antiga paróquia, ao lado do prédio atual, dois anos depois. De 93 ao final de 97, foram atendidas mais de 24 mil pessoas pelos profissionais do Centro.
Segundo o coordenador administrativo da Paróquia Coração de Maria, Carlos Stersa, todas as pessoas que procuram atendimento passam por uma triagem, na qual é analisada a necessidade de cada um. ‘‘Nós não fixamos uma determinada renda mensal para que as pessoas sejam atendidas. Às vezes, tem um cidadão que ganha R$ 600,00 mas tem que manter uma família grande e precisa ter atendimento gratuito’’, diz Stersa.
Ele informa que, atualmente, 143 profissionais fazem trabalho voluntário no centro, sem contar uma equipe de jovens que percorre consultórios médicos rotineiramente em busca de amostras grátis de remédios para distribuição. ‘‘É uma bênção de Deus esses profissionais prestarem o serviço’’, comenta Stersa.
Entre as pessoas atendidas no Centro estão as domésticas Genice de Fátima Guilherme, 31 anos, e Sirlei da Silva Oliveira Coelho, 24 anos. Ambas têm renda de, no máximo, R$ 200,00. ‘‘Jamais eu poderia pagar um serviço como esse. Além do tratamento, aqui a gente é recebida com carinho’’, comenta Genice, que faz tratamento odontológico no Centro pela terceira vez.
Sirlei, que também faz tratamento odontológico, é outra que elogia o trabalho do Centro Social. ‘‘Esse tipo de serviço é muito bom. Ajuda muito as pessoas que não podem pagar, como é meu caso.’’

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