Voluntários levam esperança a carentes
Silvana Leão
De Londrina
Criatividade, boa-vontade, disposição, sensibilidade. Todas estas qualidades se unem para formar uma palavra-chave, que tem sido a salvação para as pessoas que nasceram na camada mais sombria da sociedade, onde reina a pobreza absoluta: solidariedade. Seu poder é tamanho que ela aparece tanto entre os mais abastados quanto entre os que pouco ou nada têm para doar, a não ser seu tempo e uma enorme motivação para ajudar.
Recentemente uma revista de circulação nacional trouxe reportagem de capa com os ricos e famosos que encontraram na filantropia uma forma de acabar com o vazio que nem toda a fortuna acumulada conseguiu preencher. Eles engrossam um movimento que hoje é responsável pela doação de R$ 12 bilhões destinados a instituições filantrópicas no País.
Cerca de 15 milhões de brasileiros deram dinheiro para obras sociais no ano passado, enquanto outros 21 milhões contribuíram com algum bem material. O que estas pessoas e instituições ligadas a empresas e igrejas estão fazendo, na verdade, é mostrar que se cansaram de esperar por iniciativas governamentais e arregaçaram as mangas na tentativa de amenizar a miséria de muitos.
No decorrer de 99, a Folha mostrou vários exemplos de solidaridade. Os mais comoventes foram aqueles de pessoas que apesar de continuarem morando em favelas, assentamentos e locais humildes, fazem questão de ajudar o próximo como podem. No mês de maio, por exemplo, uma reportagem destacou a voluntária da Pastoral da Criança projeto desenvolvido pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) , Elvira Duarte de Moraes, de 62 anos.
Exemplo de coragem, dona Elvira sobrevive da aposentadoria de R$ 218,00 recebida pelo marido e do pouco conseguido com a venda de panos-de-prato e outras peças de artesanato. Coisa de R$ 50,00 por mês. Apesar das dificuldades, ela não tem dúvidas quando encontra, nas peregrinações pelas casas das famílias acompanhadas pela Pastoral, crianças à beira da morte. Por diversas vezes levou para casa e salvou a vida de pequenos subnutridos.
Com a multimistura utilizada pelo projeto ou com uma receita particular de arroz enriquecido com pés de frango e legumes, ela sacia a fome e devolve a esperança a quem cruza o seu caminho. A justificativa desta guerreira para tamanha disposição é simples: A fome foi a pior doença que já deparei em toda a minha vida.
A longa convivência com a miséria também serviu de estímulo à líder comunitária Olivina Leonel, conhecida por Regina no assentamento São Jorge (zona norte), onde mora. Filha de índio com branca, ela já dormiu sobre lona e passou fome muitas vezes. Hoje Regina transforma sua casa numa espécie de quartel-general, onde distribui remédios e comida aos mais necessitados. No seu quintal foi construído um barracão onde funciona um pronto-atendimento de sáude, com médicos e enfermeiros prestando serviço voluntário.
Recentemente, a Folha mostrou a história do jardineiro Valcuruci Jorge dos Santos, mais conhecido como Seo Jorge, que diariamente sai em busca de lixo reciclável pelas ruas da cidade para vender e comprar roupas novas para crianças e bebês carentes do seu bairro. Esse é o meu jeito de ajudar as pessoas, argumenta o jardineiro.
O jovem Eduardo Lobato, de 17 anos, funcionário da lanchonete McDonalds, emocionou a todos ao entregar na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) de Londrina, na semana passada, uma cadeira de rodas comprada com o dinheiro economizado com vale-transporte. Desde que começou a trabalhar, há quatro meses, Lobato percorre de bicicleta os cinco quilômetros que separam o apartamento onde mora, no centro da cidade, do Shopping Catuaí, seu local de trabalho.
O que leva um jovem a deixar de lado o conforto e a preocupação com o que os outros vão pensar para abrir mão de um direito conquistado através de seu trabalho? Só pode ser a palavra mágica, solidariedade, mencionada anteriormente. E também, admite Eduardo, uma vontade de deixar o mundo um pouco melhor para o próximo milênio.
Em grupo ou individualmente, a solidariedade tem sido responsável por vários trabalhos louváveis em Londrina. Quem depende dos enxovais de bebê carinhosamente preparados por um grupo de senhoras ligado ao Programa do Voluntariado Paranaense (Provopar) ou a iniciativas como a da Associação de Senhoras Voluntárias do Hospital Universitário (HU) que o diga.
Só esta última atua há 20 anos, transformando em verdadeiro porto-seguro a casa mantida para os renais crônicos de Londrina e região que vão fazer hemodiálise e não têm onde ficar. O projeto desenvolvido pelo grupo de mulheres adquiriu tamanha dimensão que hoje suas vidas pessoais praticamente inexistem. Mas elas não se queixam. Pelo contrário, sentem-se bem fazendo este gesto de filantropia (ou caridade, como era chamado no passado).
A satisfação interior é um dos fortes incentivos aos trabalhos dos voluntários. A cabeleireira Cleusa Ramos, 29 anos, não sabe exatamente há quanto tempo começou a visitar creches, doando comida, atenção e melhorando a aparência das crianças. Tive contato pela primeira vez com as creches durante o curso de cabeleireiro e não parei mais de visitá-las. Ela conta que no começo chegava a pegar alimentos na despensa de sua casa, quando via uma família passando fome.
Durante algum tempo, Cleusa destinou uma noite da semana para visitar a antiga rodoviária de Londrina, munida de caldeirões de sopa e tesoura para cortar o cabelo dos que faziam do local seu abrigo. Atualmente ela continua visitando creches e socorrendo as famílias que a procuram sem ter o que comer. Elas são aproximadamente 30 e os alimentos são comprados quase sempre com a ajuda de amigos. Na época do Natal muitos ajudam, mas tem mês que é muito difícil conseguir doações, então eu tiro do meu bolso.
A cabeleireira sabe que serve de elo entre os que querem ajudar mas não sabem como e as pessoas que precisam desta ajuda. Conheço muita gente que quer fazer doações mas não tem coragem ou tempo de ir até as favelas, por exemplo. Então eu faço isso por elas.
Nesta época do ano, Cleusa prepara e entrega dezenas de cestas básicas. Como conhece a maioria das famílias, faz questão de prepará-las de acordo com as necessidades de cada uma. Quando sei que aquele alimento vai para pessoas idosas, por exemplo, procuro colocar só coisas leves. Por várias vezes sua noite de Natal foi na favela, distribuindo os alimentos arrecadados. Faço isso com muito amor. Acho que é uma forma de agradecer tudo de bom que tenho recebido.Ricos, pobres e remediados se misturam numa rede que não tem líder nem regras, mas um objetivo único: amenizar o sofrimento alheio
Cesar AugustoINTERMEDIÁRIACleusa Ramos prepara cestas básicas feitas a partir de doações: elo entre os que ajudam e os que precisamArquivo FolhaElvira Duarte de Moraes, 62 anos, voluntária da Pastoral da Criança em Londrina, sobrevive com uma aposentadoria do marido de apenas R$ 218,00 e do pouco que consegue com a venda de artesanatoArquivo FolhaA líder comunitária Olivina Leonel, conhecida por Regina no assentamento São Jorge, na zona norte de Londrina, já dormiu sobre lona e passou fome muitas vezes. Mas distribui remédios e comida aos mais necessitadosArquivo Folha/Paulo WolfgangEduardo Lobato, 17 anos, economizou vale-transporte durante quatro meses. Com o dinheiro comprou uma cadeira de rodas, que doou para Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) de Londrina, na semana passadaArquivo Folha/Josoé de CarvalhoO jardineiro Valcuruci Jorge dos Santos, mais conhecido como Seo Jorge, sai diariamente em busca de lixo reciclável pelas ruas da cidade para vender e comprar roupas novas para crianças e bebês carentes do seu bairro





