Ney de SouzaFrente de combateCrianças atendidas pela Pastoral da Criança em Foz: mortalidade infantil praticamente zerada em quatro favelasMortalidade caiu de
130 para apenas três casos por ano; número surprendeu até a CNBB Um ‘‘batalhão de voluntários’’ coordenados por uma freira da Pastoral da Criança da Igreja Matriz São João Batista e do Núcleo Sagrada Família, uma entidade da Igreja Católica de Foz do Iguaçu, conseguiu desenvolver um trabalho que há anos os governos vêm tentando sem sucesso. A mortalidade infantil nas quatro maiores favelas da cidade - Monsenhor Guilherme, Marinha, Cemitério e Pedreira - foi praticamente zerada. Nessas comunidades moram aproximadamente 7.500 pessoas.
Criada há dez anos, a Pastoral da Criança foi além das pregações da fé e conseguiu reduzir a mortalidade infantil nessas favelas - de 130 mortes anuais para apenas três casos por ano. Isso significa que, utilizando-se das doações e da dedicação de voluntários, 128 crianças são salvas por ano. Esses números supreenderam até a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que pretendia reduzir a mortalidade em 50% nesses programas coordenados pela Igreja Católica.
Os voluntários visitam diariamente as 1.800 famílias das favelas, monitoram o peso das crianças e fornecem receitas de comidas alternativas e baratas. Os ingredientes básicos desses pratos são folhas e cascas de legumes, normalmente jogados fora. Essas partes - até então desperdiçadas - são ricas em vitaminas e nutrientes e estão combatendo a fome dentro das favelas.
‘‘A receita é simples. As vítimas da mortalidade infantil morrem porque têm fome. Para combatê-la, basta comida’’, afirma a freira Lidia Mader, coordenadora da Pastoral da Criança e do Núcleo Sagrada Família. Irmã Lidia, como é conhecida nas favelas, é humilde e diz que o trabalho desenvolvido não merece grandes elogios. ‘‘É um dever de todo cidadão e todo cristão’’, afirma.
O núcleo encabeçado pela freira se transformou em um centro de referência das quatro comunidades vizinhas. ‘‘Na verdade, o local é um posto, um ponto de referência’’, diz a irmã Lidia.
O abnegado ‘‘batalhão’’ - composto por 60 voluntários, uma freira e nove funcionários da Igreja Católica - mantém uma padaria que produz pães para as pessoas asssitidas pelos programas, um berçário que atende diariamente 30 bebês; uma pré-escola com 24 crianças; consultórios com dentistas, médicos especilistas em obstetrícia e pedriatria, advogado e fonoaudiólogo. Toda essa infra-estrutura fica dentro da Favela da Marinha, que recebeu esse nome por estar ao lado da Capitania dos Portos.
Além de alimentação, as crianças carentes atendidas pelo núcleo recebem o tratamento de profiliaxia dentária - acompanhamento do nascimentos dos primeiros dentes até a formação de toda a arcada - desde o primeiro mês de vida até os três anos de idade. A profilaxia não é oferecida por nenhum governo da América do Sul e, no Brasil, só é feito por dentitas particulares.
Os programas não atendem apenas crianças. Todos os dias, segundo a irmã Lidia, alguém da Pastoral da Criança está visitando as famílias das favelas. Nesses encontros, os líderes comunitários fazem um ‘‘raio x’’ da família atendida. Eles observam se há criança fora da escola, sintomas de doenças na família, além de pesar os bebês que são registrados em uma ficha separada. ‘‘As crianças abaixo do peso são encaminhadas para o médico e a família passa a ter um tratamento especial’’, conta irmã Lidia.
No Núcleo Sagrada Família, as mães são orientadas sobre formação de hortas comunitárias, prevenção da mortalidade, tratamentos com medicamentos naturais e alimentação alternativa. A igreja fornece até um livro de receitas. Entre os alimentos fornecidos destaca-se a multimistura, uma espécie de farinha feita com cascas de amendoim e ovos, farelo de trigo e soja e outros nutrientes que enriquecem a alimentação.
‘‘Cascas de bananas vira uma delicosa farofa se for enriquecida com folhas verdes’’, destaca a freira, que diariamente recebe frutas e verduras doadas pela comunidade. ‘‘Uma abóbora, por exemplo, pode ser usada por inteiro. Desde as folhas, até a casca e as sementes’’, orienta irmã Lídia.
Além de todo esse trabalho, que inclui a prevenção e o combate à mortalidade infantil, a pastoral mantém equipes que ensinam a educação essencial (verificam se o comportamento das crianças correspondem ao considerado normal para a sua idade) e a catequese no ventre materno. ‘‘Nesse trabalho, a figura mais importante é a comunidade, que nos ajudou na construção do núcleo dentro da favela e nos ajuda com doações que, em muitos casos, pode signficar a vida de uma criança’’, conclui irmã Lidia.

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