Érika Pelegrino
De Londrina
A maioria vem de famílias desestruturadas, com pais alcóolatras e usuários de drogas. Desde o final da infância trocaram seus lares pelas ruas e tinham como perspectiva apenas o caminho das drogas e da prostituição. Maconha, crack, cocaína, cola começaram a fazer parte da rotina delas como uma válvula de escape para inseguranças, rejeições, abandonos.
Quando caem em si e percebem que o caminho que estão trilhando não tem mais volta, muitas dessas pessoas buscam ajuda. Outras são ‘‘obrigadas’’ pela família ou pelo Conselho Tutelar a encontrar alternativas de vida fora das ruas. Umas querem mudar, outras ainda não estão muito certas, muitas não consideram que são dependentes.
Conscientes ou não, elas vão chegando na casa de recuperação filantrópica Recanto Maranata, localizada no Conjunto Cafezal II (zona norte de Londrina), criada há um ano por Izabel Escudeiro Bento, que há mais de 22 anos trabalha com recuperação de dependentes de drogas.
Lá, jovens grávidas, mães com seus filhos, adolescentes que começaram a se prostituir com 12 anos, tentam encontrar um novo rumo para suas vidas. Ou simplesmente esperam o tempo necessário para ir embora. ‘‘Eu não gosto de trabalhar com aquelas que não querem mudar. É complicado, elas acabam atrapalhando a recuperação daquelas que não estão muito firmes, mas que aceitam o tratamento’’, afirma Izabel. ‘‘A recuperação acontece quando a jovem quer mudar’’, explica.
É comum recém-chegadas fugirem. Mas na maioria das vezes acabam voltando. P., 16 anos, grávida de sete meses, veio de Presidente Prudente (SP) encaminhada pelo Conselho Tutelar, e é um exemplo. ‘‘Eu vim para cá porque as meninas que estavam comigo na rua vieram. Eu não ia ficar sozinha na rua.’’
Acabou fugindo, mas ao chegar em Presidente Prudente descobriu que estava grávida e resolveu voltar. ‘‘Fiquei com medo de que acontecesse alguma coisa comigo e com o bebê.’’ Ela começou a usar drogas com 15 anos. Filha adotiva, perdeu a mãe que a adotou com três anos e foi criada pelo pai adotivo até os 11 anos. ‘‘Depois minha mãe verdadeira veio me buscar. Foi muito ruim, ela me batia, me deixava sem comer. Eu fugi e voltei a morar com meu pai adotivo.’’
A amiga C., 14 anos, grávida de cinco meses, entra na conversa e conta que influenciou P. a entrar no mundo das drogas, mesmo sem querer. ‘‘Eu era sozinha, não tinha amigas e ela (a amiga) morava perto da minha casa e também não tinha amigas’’, conta. ‘‘Começamos a andar juntas. Eu já fazia programas e usava drogas, mas não deixava que ela fizesse estas coisas. Ela ainda era virgem, nunca tinha usado nada. Eu não queria que ela tivesse a mesma vida que eu.’’
P. acabou experimentando drogas com outras amigas e foi expulsa de casa pelo pai adotivo. Ainda com ares infantis, perceptíveis pelo dedo que leva à boca encoberto por um paninho, P. parece mais com uma criança que não sabe direito o que está acontecendo. ‘‘Não sei bem o que quero, nem o que vou fazer quando sair daqui’’, afirma. Ela está no recanto há cinco meses.
Embora dois anos mais jovem, a amiga C. é bem mais segura e não aparenta ter apenas 14 anos. Ela sabe muito bem o que pretende fazer quando sair do recanto. ‘‘Minha vida nas ruas não tinha futuro. Era um caminho sem volta’’, diz. ‘‘Eu quero sair daqui e salvar a minha família e as meninas que estão nas ruas como eu. Meu irmão de 11 anos fuma cigarro porque eu ensinei. Quero agora passar coisas boas para ele, quero mostrar que este caminho não tem futuro.’’
C. começou a usar drogas e a se prostituir com 12 anos. Ela cresceu vendo a mãe e os tios se drogarem dentro de casa. ‘‘Eu não tinha escolha, não. O que eu conhecia era aquilo, a minha família se drogando. Para mim este era o caminho que eu deveria seguir.’’
Depois de cinco meses no recanto ela tem certeza que não há mais espaço para drogas em sua vida. Apesar da pouca idade, já se incumbiu de uma missão árdua: ‘‘Vou tirar minha família desta vida. Minha mãe já está mudando desde que eu vim para cá. Falo com ela sempre e vou passando o que estou aprendendo. Ela já está se tornando evangélica, mas ainda não tem muita fé em Deus, vou passar isto para ela.’’
G., 16 anos, veio junto com P. e C. e também está certa que não quer mais voltar à vida que levava nas ruas de Presidente Prudente (SP). Ela começou a se drogar com 10 anos. Aos 15 estava se prostituindo para conseguir dinheiro para as drogas. ‘‘É um caminho inevitável’’, diz.
A adolescente afirma que o sentimento de rejeição a levou a cheirar cola. ‘‘Eu achava que a minha mãe não gostava de mim. Quando eu estava sob o efeito das drogas este sentimento passava.’’ G. seguiu o caminho da maioria das meninas nesta situação: saiu de casa, caiu nas mãos de traficantes.
‘‘Eu comecei a ficar com muito medo de morrer. Quando ia dormir ficava imaginando que um traficante viria até a minha casa para me matar.’’ O medo fez G. procurar o Conselho Tutelar de sua cidade e pedir ajuda. Há cinco meses ela está no recanto. ‘‘Não sei o que vou fazer quando sair daqui, se vou voltar para minha família ou não. Mas não volto para as drogas’’, garante.
Quanto à mãe, ela afirma que quando chegou no recanto a odiava. ‘‘Hoje sei que eu tenho que perdoá-la, mãe é mãe’’, diz, aparentando ainda uma certa mágoa. M.A., 16 anos, também percorreu a mesma trajetória; drogas, prostituição, medo, a busca por uma vida diferente. Com pais alcóolatras, ela conta que experimentou drogas com o primo. Hoje ela garante que quer uma outra vida junto com a família, mas em um bairro diferente.
‘‘Onde eu moro tem muita gente que usa drogas. Mesmo com força de vontade e acreditando em Jesus, como agora eu acredito, a tentação vai ser irresistível.’’ A mãe de M.A., Nadir, 39 anos, cinco filhos, alcóolatra, também está no recanto, mas não tem a mesma convicção da filha.
Nadir diz não entender como tudo aconteceu. Para ela a decisão da filha de ir para a casa de recuperação é que ‘‘desestruturou’’ a vida da família. ‘‘Sempre estive com todos os meus filhos. Agora o menino de 10 anos está com minha filha de 21 anos, que é casada, e o menino de 1 ano e oito meses que tem problema de coração está com uma família indicada pelo juízado de menores.’’
A filha J., de 5 anos, está junto com Nadir no recanto. Nadir foi ‘‘obrigada’’ a buscar ajuda para parar de beber, sob o risco de perder definitivamente a guarda de seus filhos. ‘‘Tenho que provar que eu não bebo mais para ficar com eles. Só que eu só tomo pinga de noite, depois do trabalho’’, diz.
Nadir não quer cumprir os nove meses de tratamento no Recanto Maranata. ‘‘Vou ficar três meses depois volto para buscar meus filhos. Eu tenho que trabalhar.’’ Ela trabalha na limpeza pública na prefeitura de Presidente Prudente.Recanto Maranata, em Londrina, luta contra falta de dinheiro para assistir meninas e mulheres que precisam de ajuda
Mário CesarCONVÍVIOAdolescente abrigada no Recanto Maranata, em Londrina, mantém crianças enquanto recebe ajudaFotos Mário Cesar‘‘C.’’ e ‘‘P’’, que esperam bebês (esquerda); Nadir, à direita, com as filhas

mockup