O homem que livra os londrinenses da presença quase sempre apavorante de cobras não é bombeiro, detetizador, doutor em biologia nem ex-funcionário de zoológico. Quando o animal peçonhento surge em lugares insuspeitos como o Centro de Londrina, é o telefone do técnico em eletrônica Roberto Ferreira, 35 anos, que toca.
Autodidata, Ferreira começou a estudar sobre esses répteis há cerca de 15 anos. O interesse surgiu durante os acampamentos do Clube dos Desbravadores, associação semelhante aos escoteiros, do qual se tornou membro aos 9 anos e hoje é coordenador no norte do Paraná. ''Sempre nos deparávamos com algum tipo de animal, alguns perigosos como as cobras. Decidi estudar sobre elas para aumentar nossa segurança'', conta.
A intimidade do técnico com o assunto, adquirida nos livros e na prática, chegou a tal ponto que ele passou a ser chamado pelo Corpo de Bombeiros para prestar apoio na captura de cobras em Londrina. Toda vez que elas aparecem, Ferreira é acionado pelos socorristas e as remove do local. É só o começo do trabalho: o especialista leva os répteis para casa e cuida deles até que estejam prontos para retornar à natureza. A ''custódia provisória'' dura em média 30 dias, mas pode se estender em épocas de frio.
É o caso de duas cascavéis resgatadas na cidade há três meses. Ferreira diz que está aguardando o final do período crítico de frio para soltá-las, o que deve acontecer somente em meados de setembro. ''Uma queda brusca de temperatura poderia até matá-las'', justifica. Até lá, elas irão receber, como suas antecessoras, alimento e abrigo em condições adequadas para sua espécie.
O próprio técnico em eletrônica produziu um sensor de temperatura para mantê-las aquecidas dentro de um terrário, onde dispõem de água e pedaços de pau para se esfregar e soltar as peles. As refeições têm como prato principal pequenos roedores, comprados por Ferreira ou doados por universidades. ''É necessário cuidar do animal antes de devolvê-lo à natureza, porque se ele voltar debilitado vira presa fácil'', observa.
Depois de aprender que as cobras não vivem em constante posição de ataque, como muitos imaginam, Ferreira se arrependeu de ter matado um desses répteis da primeira vez que deparou com o bicho. ''Hoje sei que ele não estava me atacando, só cruzando meu caminho. Mas na hora pensei que era eu ou ele'', recorda. Segundo ele, as cobras só atacam o homem quando ficam assustadas. ''Medo eu ainda tenho, porque é um animal perigoso. Mas nunca fui mordido porque conheço a atitude dele.''
Claro que a mesma calma não é compartilhada pelos moradores que encontram um ser sinuoso se rastejando por seus quintais ou até pelos cômodos da casa. Depois de capturar a cobra e tranquilizar a família, o especialista explica aos moradores que são eles mesmos que criam condições para o aparecimento de animais peçonhentos. ''Tento fazer as pessoas mudarem seus hábitos: não jogar lixo atrás da casa, por exemplo, porque aí vem o rato e atrás dele a cobra.''
As espécies mais comuns em Londrina, de acordo com Ferreira, são a cascavel e a coral, que se adaptam em lugares secos e abertos. Em fundos de vale ele também já encontrou jararacas, que gostam de lugares mais úmidos. Tudo isso é
levado em conta na escolha do local onde serão soltas. ''Procuro uma região que ofereça ambiente adequado e sem contato humano'', comenta, sem saber afirmar quantas cobras já capturou e devolveu. ''Em média, atendo de uma a duas solicitações por mês, geralmente no verão'', pontua.
Casado e pai de dois filhos, o técnico tem de contar com a compreensão da família em relação ao trabalho com as cobras, para o qual não recebe nenhuma ajuda financeira. Até a casa da mãe faz as vezes de abrigo. ''No começo ela tinha medo que escapassem, mas se acostumou'', ameniza. O que explica que um homem dedique tempo, dinheiro e se exponha a riscos para manter uma atividade voluntária como essa? ''A Natureza faz parte da minha vida. Tento preservá-la da melhor maneira possível.''

mockup