Adriana Amorim e André Ortega: casal se reveza para atender ligações no CVV
Adriana Amorim e André Ortega: casal se reveza para atender ligações no CVV | Foto: Fabio Alcover



Oferecer um pouco de tempo, talento ou conhecimento em favor dos outros, sem retorno financeiro. Uma definição tão básica assim esconde inúmeros fatores envolvidos no voluntariado, um tipo de trabalho cada vez mais importante para suprir demandas sociais não contempladas pelas ações do poder público. O que muitas vezes passa despercebido nessa história é que voluntários também se beneficiam muito nessa relação: satisfação pessoal, novas amizades, desenvolvimento de habilidades, incremento no currículo. Quando o voluntariado é uma atividade feita em família, há ainda outras vantagens: pais transmitem valores aos filhos, irmãos estreitam seus laços, casais harmonizam a relação.
Foi o que aconteceu com a brasiliense Adriana Amorim e o londrinense que por muito tempo viveu em Brasília André Ortega. Recém-chegados a Londrina, eles viram um cartaz na parede da Rodoviária. Nele, o Centro de Valorização da Vida (CVV), que oferece apoio emocional para prevenção de suicídios, convidava interessados para o curso de novos voluntários. "Ele já tinha vontade e eu também, mas nunca tínhamos conversado sobre isso. Esse cartaz foi o que nos motivou", conta Adriana.
Um mês depois, em outubro de 2016, o casal entrou para o quadro de voluntários da instituição. Desde então, uma vez por semana, eles se revezam para atender ligações feitas ao CVV entre 23 e 7 horas. "Nós dois trabalhamos juntos, por conta própria, pela internet. Isso nos dá flexibilidade de horários. Quando estamos no CVV, enquanto um atende o outro fica do lado, descansando ou trabalhando", conta André.
Eles afirmam que o voluntariado melhorou a relação dos dois, que estão juntos há três anos. "Ser voluntário juntos é muito motivador porque um apoia o outro e deixa esse trabalho muito mais leve, mais fácil de executar", afirma André. Segundo Adriana, o trabalho no CVV ensina a escutar e a não julgar o outro, o que teve reflexos diretos na relação do casal. "Isso desconstrói muita coisa, muda a forma com que a gente se relaciona com o outro, a aceitação. E tem reflexos até na relação com nossa família", conta.
Apesar de os planos para o futuro não terem Londrina como cenário, os dois, já tão acostumados a trabalhar remotamente, pretendem manter o voluntariado no CVV. "Como, além do telefone, o CVV também faz atendimento on-line, pretendemos fazer o treinamento e, quando formos embora de Londrina, poderemos manter esse trabalho", explica André.

HERANÇA
Na família de Nathaly e Lyvia Assunção, o voluntariado passa de geração para geração. As estudantes, irmãs, lembram das vezes que, ainda crianças, acompanhavam o avô pelas comunidades que ele ajudava em Ibiporã (Região Metropolitana de Londrina). Depois, durante os oito anos que moraram fora do país, foram voluntárias em projetos da igreja, com a família. Quando voltaram, há três anos, Nathaly, a mais velha, descobriu que o Hospital Evangélico tinha vaga para voluntários. "Duas vezes por semana eu ia lá visitar os pacientes, levava uma revista, levava produtos de higiene que eu arrecadava", lembra ela.
Por causa de mudanças na carga horária do curso de Odontologia, Nathaly teve de deixar o hospital, que trabalha com voluntários apenas de segunda a sexta. A estudante passou, então, a ser voluntária durante os fins de semana, no Projeto Educar, do Lar Anália Franco, que abriga crianças e adolescentes encaminhadas pelo Juizado da Infância e da Juventude. Dessa vez, Lyvia, que também estuda durante a semana, se sentiu estimulada a acompanhar a irmã. "Eu dou aula de inglês para as crianças maiores do lar e a Lyvia fica com os bebezinhos", conta Nathaly.
Juntas, elas buscam formas de arrecadar doações, de alegrar as crianças e promover o bem-estar delas. Todo esforço em torno de um objetivo em comum estreitou os laços entre as duas. "Sempre fomos unidas, mas sempre tem aquelas briguinhas de irmãs. O voluntariado nos aproximou muito. Por ser mais velha, a Nathaly me orienta, nós conversamos e trocamos muitas ideias sobre o projeto", conta Lyvia.

"Eu e minha mãe sempre fomos muito próximas, mas o voluntariado estreitou ainda mais nossa relação", afirma Jessica, ao lado de Miriam Klarosk Helenas
"Eu e minha mãe sempre fomos muito próximas, mas o voluntariado estreitou ainda mais nossa relação", afirma Jessica, ao lado de Miriam Klarosk Helenas | Foto: Gustavo Carneiro



‘A gente acaba voltando para onde se sente em casa’
Quando cursava a graduação em Engenharia Ambiental, Jessica Klarosk Helenas soube que o curso exigia algumas horas de atividades complementares de cunho social. Decidiu ser voluntária na ONG Viver, que apoia crianças e adolescentes com câncer. O que deveria ter sido uma experiência de alguns poucos meses, já dura quatro anos. "Sempre gostei de crianças, mas não imaginava que me apegaria tanto. Acabei me esquecendo que estava ali para cumprir uma carga horária do curso", conta a engenheira ambiental.
O início do voluntariado de Jessica foi o empurrão que faltava para Miriam Klarosk Helenas, sua mãe. "Eu sempre tive vontade de ser voluntária, mas por uma coisa ou outra, nunca fui atrás. Quando a Jessica começou, decidi ir também", conta.
Apesar de trabalharem em dias diferentes na organização – Jessica, na recreação, às terças e quartas-feiras, e Miriam no artesanato, às quintas – o voluntariado se tornou uma preocupação comum às duas. Além da família que já compunham, mãe e filha passaram a integrar uma nova família, como elas mesmas se referem à ONG.
"Nossa família toda acabou se envolvendo de alguma forma por causa dos eventos da ONG. Mas é diferente falar sobre isso com meu marido ou minha outra filha porque só eu e a Jessica tínhamos o convívio com as crianças", conta Miriam. Na outra ponta, a filha sente a mesma cumplicidade. "Eu e minha mãe sempre fomos muito próximas, mas essa experiência do voluntariado estreitou ainda mais nossa relação. Não é fácil lidar com crianças doentes, a gente se envolve com elas e, muitas vezes, as perdemos. Nessas horas, nós tínhamos uma a outra para se apoiar", explica.
Tudo isso é dito assim, no passado, porque ambas tiveram que se afastar recentemente da ONG. Jessica iniciou o mestrado e já não tem tempo disponível para as atividades com as crianças. Miriam, por causa da transferência do trabalho do marido, se mudou para Curitiba. "Vou continuar fazendo alguns artesanatos para a ONG. Minha intenção é um dia voltar para Londrina e para a ONG", afirma. Jessica também não tem dúvidas que vai voltar assim que possível. "Eu já me afastei em outra oportunidade por causa do trabalho e logo voltei. A gente sempre acaba voltando para onde se sente em casa." (J.G.)

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