fotos: Marcos Negrini





Drama comumA zeladora Osana Isaurina de Jesus chora toda vez que conta como está sobrevivendo sem receber o salário de R$ 180,00 (foto superior); Joaquim Pacífico mostra as contas vencidas (foto central); Ivanilda Albuquerque, dona do mercado que vende fiado aos servidores (foto inferior).




O motorista Joaquim Pacífico Salgado Neto, 50 anos, trabalha na Prefeitura de Goioerê (72 km a oeste de Campo Mourão) há 12 anos e seria um servidor público comum se não acumulasse oito folhas de pagamento sem receber e uma dívida na mercearia que já passa dos R$ 1,3 mil. No bolso da camisa, ele carrega o aviso de corte no fornecimento de energia elétrica e uma correspondência comunicando que seu nome está indo para o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) pelo atraso em duas parcelas de uma televisão que ele comprou em 18 pagamentos.
‘‘As prestações são de R$ 39,54 e eu poderia pagá-las normalmente se estivesse recebendo’’, queixa-se. Com um salário mensal de R$ 270,00, Salgado vai ao desespero quando descobre que precisa trabalhar quatro meses só para pagar o que deve no mercado. ‘‘Ainda bem que o feijão e o arroz eles continuam me vendendo’’, consola-se. ‘‘Se recebesse tudo o que a prefeitura me deve, sobraria um pouco até para fazer uma compra à vista’’, diz. A história é muito parecida para a maioria dos cerca de 700 funcionários da prefeitura de Goioerê.
Em janeiro do ano passado, os servidores receberam com alívio o pagamento daquele mês em dia. Eles haviam tido um ano muito difícil em 96, quando a prefeitura pagava com atrasos e, ao fim do ano, acumulava cinco folhas sem pagamento. De janeiro a maio de 97, o funcionalismo chegou até mesmo a receber uma folha deixada pelo ex-prefeito José Paulo Novaes (PDT), mas a alegria durou pouco. Os salários voltaram a atrasar a partir de junho e, nove meses depois, os servidores têm outros quatro meses sem receber.
‘‘Voltamos ao tempo da escravidão’’, protesta o operador de máquinas pesadas Mário Faria Filho, 41 anos, que trabalha na prefeitura há 22 anos e tem um salário de R$ 351,00. Ele vem sobrevivendo com o dinheiro que a mulher dele recebeu ao ser demitida de uma indústria. ‘‘Só passamos nervoso’’, diz. O soldador Wálter Ribeiro, 45 anos, há 12 na prefeitura e salário de R$ 292,00, é ainda mais revoltado. ‘‘Dá vontade de se enrolar num monte de dinamite e explodir a prefeitura’’, frisa. ‘‘Não sei como ainda não tive um infarto’’.
Barriga vazia A zeladora Osana Isaurina de Jesus, 39 anos, chora toda vez que conta como está sobrevivendo sem receber o salário de R$ 180,00 que conquistou em 12 anos de prefeitura. ‘‘Às vezes tenho que fingir para as minhas filhas que estou de barriga cheia’’, diz. Osana cuida sozinha das meninas de 14 e 11 anos e tenta sobreviver fazendo bicos, mas reclama que não consegue serviço. Precisando de dinheiro, ela chegou a propor à prefeitura que lhe pagasse R$ 160,00 e, em troca, esqueceria do resto dos atrasados que tem para receber. A proposta não foi aceita.
Só para o mercado Osana deve cerca de R$ 500,00. ‘‘Não podemos puxar o tapete dos servidores numa hora dessa’’, diz a comerciante Ivanilda Plaza Albuquerque. Ela é dona de um minimercado que vende fiado para 10 funcionários da prefeitura e tem para receber deles cerca de R$ 9 mil. ‘‘Esse dinheiro me faz muita falta, mas sei que eles são pessoas honestas e só não estão pagando porque não podem’’, afirma. ‘‘Além do mais, a gente vê que eles só estão comprando coisas básicas. Ninguém leva nada supérfluo’’.
Ivanilda diz chega a ter saudades do tempo em que o funcionalismo recebia em dia. ‘‘No dia do pagamento nosso movimento era grande’’, recorda-se. ‘‘Em 10 anos no comércio, nunca tinha visto uma crise como essa’’. Os servidores que o digam. ‘‘Nem lembro direito o meu salário’’, conta o eletricista de automóveis, Oscar Sakakima, 63 anos, que trabalha há 20 na prefeitura e recebe cerca de R$ 300,00. ‘‘Só não passo fome porque meus filhos estão me ajudando’’, ressalta. Os filhos estão no Japão e já lhe emprestaram R$ 1,8 mil.
O funileiro José Ribeiro Chagas Neto, 58 anos, trabalha na prefeitura há 10 anos e ganha R$ 384,00 por mês. Com salários atrasados há nove meses, reclama que vem sendo pressionado pela Caixa Econômica Federal, onde deixou de pagar há seis meses a prestação de R$ 40,00 de sua casa no Conjunto Universitário. ‘‘A Caixa está em cima da gente, mas só posso pagar alguma coisa se começar a roubar’’, diz. Chagas também está indo para o SPC porque atrasou três prestações de uma televisão.
Sem água ‘‘Cortaram minha água porque eu não tinha R$ 38,00 para pagar a conta’’, reclama o pintor Antônio Pereira Chaves, 56 anos. Ele está há 23 anos na prefeitura e tem salário de R$ 308,00. Para piorar, ele disse que não consegue mais arrumar ‘‘bicos’’ nos finais de semana para conseguir um dinheiro extra.
‘‘O último bico que fiz foi há mais de seis meses’’. Já o auxiliar de serviços gerais, Adílson Cardoso Rodrigues, 37 anos, 10 anos de prefeitura e rendimento mensal de R$ 173,00, conta que já foi fichado no SPC por não pagar um sofá e perdeu o crédito na merceria.
Rodrigues foi salvo pelos convênios que o Sindicato dos Servidores Municipais de Goioerê tem com três mercados da cidade. É que os convênios vêm sendo pagos pela prefeitura, mas os servidores só podem usar até metade do que ganham. ‘‘Se o prefeito cortar os convênios, o funcionalismo é capaz de destruir a prefeitura’’, diz o presidente do sindicato, Paulo Mendes da Silva. Ele acusa o Município de tratar os funcionários com descaso. ‘‘A prefeitura arrecada, em média, R$ 630 mil, e a folha de pagamento é de R$ 315 mil. Onde vai o dinheiro?’’, questiona.
Devido à crise, que passou de uma administração para outra, os servidores municipais não sabem o que é 13º salário há dois anos. ‘‘O natal aqui tem sido minguado e o comércio está se arrebentando’’, diz Silva. No ano passado, 150 servidores chegaram a aderir a uma greve por 41 dias, mas o movimento não deu resultados. A greve terminou quando a prefeitura começou a abrir sindicâncias para demitir os faltosos. Os servidores acabaram voltando ao trabalho sem nenhuma promessa de normalização dos salários.

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