Voltamos ao tempo da escravidão
PUBLICAÇÃO
sábado, 04 de abril de 1998
Sid Sauer 
fotos: Marcos Negrini
Drama comumA zeladora Osana Isaurina de Jesus chora toda vez que conta como está sobrevivendo sem receber o salário de R$ 180,00 (foto superior); Joaquim Pacífico mostra as contas vencidas (foto central); Ivanilda Albuquerque, dona do mercado que vende fiado aos servidores (foto inferior).
O motorista Joaquim Pacífico Salgado Neto, 50 anos, trabalha na Prefeitura de Goioerê (72 km a oeste de Campo Mourão) há 12 anos e seria um servidor público comum se não acumulasse oito folhas de pagamento sem receber e uma dívida na mercearia que já passa dos R$ 1,3 mil. No bolso da camisa, ele carrega o aviso de corte no fornecimento de energia elétrica e uma correspondência comunicando que seu nome está indo para o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) pelo atraso em duas parcelas de uma televisão que ele comprou em 18 pagamentos.
As prestações são de R$ 39,54 e eu poderia pagá-las normalmente se estivesse recebendo, queixa-se. Com um salário mensal de R$ 270,00, Salgado vai ao desespero quando descobre que precisa trabalhar quatro meses só para pagar o que deve no mercado. Ainda bem que o feijão e o arroz eles continuam me vendendo, consola-se. Se recebesse tudo o que a prefeitura me deve, sobraria um pouco até para fazer uma compra à vista, diz. A história é muito parecida para a maioria dos cerca de 700 funcionários da prefeitura de Goioerê.
Em janeiro do ano passado, os servidores receberam com alívio o pagamento daquele mês em dia. Eles haviam tido um ano muito difícil em 96, quando a prefeitura pagava com atrasos e, ao fim do ano, acumulava cinco folhas sem pagamento. De janeiro a maio de 97, o funcionalismo chegou até mesmo a receber uma folha deixada pelo ex-prefeito José Paulo Novaes (PDT), mas a alegria durou pouco. Os salários voltaram a atrasar a partir de junho e, nove meses depois, os servidores têm outros quatro meses sem receber.
Voltamos ao tempo da escravidão, protesta o operador de máquinas pesadas Mário Faria Filho, 41 anos, que trabalha na prefeitura há 22 anos e tem um salário de R$ 351,00. Ele vem sobrevivendo com o dinheiro que a mulher dele recebeu ao ser demitida de uma indústria. Só passamos nervoso, diz. O soldador Wálter Ribeiro, 45 anos, há 12 na prefeitura e salário de R$ 292,00, é ainda mais revoltado. Dá vontade de se enrolar num monte de dinamite e explodir a prefeitura, frisa. Não sei como ainda não tive um infarto.
Barriga vazia A zeladora Osana Isaurina de Jesus, 39 anos, chora toda vez que conta como está sobrevivendo sem receber o salário de R$ 180,00 que conquistou em 12 anos de prefeitura. Às vezes tenho que fingir para as minhas filhas que estou de barriga cheia, diz. Osana cuida sozinha das meninas de 14 e 11 anos e tenta sobreviver fazendo bicos, mas reclama que não consegue serviço. Precisando de dinheiro, ela chegou a propor à prefeitura que lhe pagasse R$ 160,00 e, em troca, esqueceria do resto dos atrasados que tem para receber. A proposta não foi aceita.
Só para o mercado Osana deve cerca de R$ 500,00. Não podemos puxar o tapete dos servidores numa hora dessa, diz a comerciante Ivanilda Plaza Albuquerque. Ela é dona de um minimercado que vende fiado para 10 funcionários da prefeitura e tem para receber deles cerca de R$ 9 mil. Esse dinheiro me faz muita falta, mas sei que eles são pessoas honestas e só não estão pagando porque não podem, afirma. Além do mais, a gente vê que eles só estão comprando coisas básicas. Ninguém leva nada supérfluo.
Ivanilda diz chega a ter saudades do tempo em que o funcionalismo recebia em dia. No dia do pagamento nosso movimento era grande, recorda-se. Em 10 anos no comércio, nunca tinha visto uma crise como essa. Os servidores que o digam. Nem lembro direito o meu salário, conta o eletricista de automóveis, Oscar Sakakima, 63 anos, que trabalha há 20 na prefeitura e recebe cerca de R$ 300,00. Só não passo fome porque meus filhos estão me ajudando, ressalta. Os filhos estão no Japão e já lhe emprestaram R$ 1,8 mil.
O funileiro José Ribeiro Chagas Neto, 58 anos, trabalha na prefeitura há 10 anos e ganha R$ 384,00 por mês. Com salários atrasados há nove meses, reclama que vem sendo pressionado pela Caixa Econômica Federal, onde deixou de pagar há seis meses a prestação de R$ 40,00 de sua casa no Conjunto Universitário. A Caixa está em cima da gente, mas só posso pagar alguma coisa se começar a roubar, diz. Chagas também está indo para o SPC porque atrasou três prestações de uma televisão.
Sem água Cortaram minha água porque eu não tinha R$ 38,00 para pagar a conta, reclama o pintor Antônio Pereira Chaves, 56 anos. Ele está há 23 anos na prefeitura e tem salário de R$ 308,00. Para piorar, ele disse que não consegue mais arrumar bicos nos finais de semana para conseguir um dinheiro extra.
O último bico que fiz foi há mais de seis meses. Já o auxiliar de serviços gerais, Adílson Cardoso Rodrigues, 37 anos, 10 anos de prefeitura e rendimento mensal de R$ 173,00, conta que já foi fichado no SPC por não pagar um sofá e perdeu o crédito na merceria.
Rodrigues foi salvo pelos convênios que o Sindicato dos Servidores Municipais de Goioerê tem com três mercados da cidade. É que os convênios vêm sendo pagos pela prefeitura, mas os servidores só podem usar até metade do que ganham. Se o prefeito cortar os convênios, o funcionalismo é capaz de destruir a prefeitura, diz o presidente do sindicato, Paulo Mendes da Silva. Ele acusa o Município de tratar os funcionários com descaso. A prefeitura arrecada, em média, R$ 630 mil, e a folha de pagamento é de R$ 315 mil. Onde vai o dinheiro?, questiona.
Devido à crise, que passou de uma administração para outra, os servidores municipais não sabem o que é 13º salário há dois anos. O natal aqui tem sido minguado e o comércio está se arrebentando, diz Silva. No ano passado, 150 servidores chegaram a aderir a uma greve por 41 dias, mas o movimento não deu resultados. A greve terminou quando a prefeitura começou a abrir sindicâncias para demitir os faltosos. Os servidores acabaram voltando ao trabalho sem nenhuma promessa de normalização dos salários.


