A recicladora Noêmia Gomes Carvalho, 57 anos, moradora da Vila Marízia (Área Central de Londrina), embarca hoje em uma jornada de reencontro com o passado. Sem contato com a família, que não vê há 42 anos, ela tomará um ônibus esta noite com destino ao Piauí, onde nasceu, para visitar a mãe e irmãos. O reencontro foi possível graças à interferência da 1º Igreja Presbiteriana Independente (IPI). Comovidos com a história da recicladora, membros da congregação se mobilizaram para localizar os parentes perdidos.
Noêmia veio para Londrina ainda adolescente, com a família do ex-prefeito Dalton Paranaguá. ''A gente morava na fazenda deles no Piauí'', contou ela, que sofria de reumatismo e foi trazida ao Sul para se tratar. ''Eu morava e trabalhava na casa da família'', relembrou.
Curada da doença, ela abandonou a residência de Paranaguá para se casar, aos 15 anos. Sem condições financeiras e envolta com os nascimentos e cuidados com as nove filhas, resultantes de dois casamentos, Noêmia foi, aos poucos, perdendo a esperança de retornar à terra natal. A última carta recebida da mãe foi há 23 anos. ''Depois, minha família se mudou da fazenda e eu perdi o contato'', revelou.
A mãe perdida, contudo, jamais caiu no esquecimento. Uma foto da senhora, emoldurada, enfeita o lugar mais nobre da sala da modesta casa onde a recicladora mora com sete filhas e grande parte dos 30 netos a maioria meninas e cinco bisnetos. A lembrança da genitora também costuma ser frquentamente evocada nas conversas com as filhas. ''Ela sempre dizia que precisava reencontrar a família antes de morrer'', contou Laurice Gomes Firmino, 36, que acompanhará a mãe na viagem.
Às vésperas de embarcar, Noêmia vive uma grande expectativa. ''Eu achava que nem tinha mais mãe e agora descobri que a minha está viva. É muita felicidade'', exclamou. A maior preocupação é reconhecer os oito irmãos mais novos que ainda moram no Piauí. ''Se eu olhar bem, vou saber quem é cada um. O sangue 'puxa''', espera.
A felicidade pelo reencontro não despertou em Noêmia a vontade de voltar a morar no Nordeste. ''Não posso deixar minhas filhas sozinhas. Estou preocupada só porque vou passar esses dez dias longe'', contou ela, que viveu a ausência da mãe e não deseja a mesma sorte às herdeiras.
Noêmia embarca hoje e deve chegar ao município de Correntes, que fica próximo à Cristalino, onde reside a família, na quinta-feira às 15 horas. Eliel José da Silva, diácono da IPI, explicou que a família da recicladora foi localizada no mês passado.
Glenio Paranaguá, irmão do ex-prefeito, foi ao Piauí a negócios e se dispôs a perguntar pela família perdida. ''Ele questionou funcionários antigos da fazenda e, na igreja, encontrou um primo de Noêmia. Ele disse que os parentes também estavam muito interessados em encontrá-la'', contou. A viagem está sendo financiada pela Igreja Presbiteriana Independente. ''Quero agradecer muito a Deus, ao pastor e ao Eliel'', ressaltou a recicladora.

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