Diz o jornalista e escritor Gay Talese que ‘‘às 5 da manhã, Manhattan é uma cidade de cansados tocadores de trompete e barmen que regressam para casa. Os pombos controlam Park Avenue e caminham pavoneando-se no meio da rua. É a hora mais suave de Manhattan’’.
Curitiba, na madrugada, não é diferente, a excetuar os tocadores de trompete. Mas, afinal, talvez não fosse difícil encontrá-los também. Andar pela cidade, apenas andar, sem objetivo, talvez seja uma das formas mais doces de conhecê-la e amá-la. A qualquer hora do dia ou da noite.
‘‘Wandering’’ é uma palavra inglesa que exprime bem a idéia de andar, só andar, meio sem destino. É quando melhor se vê, observa a cidade, o bairro e seus gatos vadios, a rua, cada esquina e sua face particular.
‘‘O movimento é a essência’’, diz o escritor norte-americano Paul Auster. Mas o nosso João do Rio, já no início do século dizia que as ruas têm uma alma e elas falam. ‘‘A rua é a transformadora das línguas’’. É lá que nascem os novos termos, as gírias que depois serão impostas aos dicionários. E ele diz também que ‘‘a rua é a civilização da estrada’’. A estrada criou a raça e o tipo social. E a rua ‘‘fatalmente cria o tipo urbano’’. Ela define moral, gostos, costumes, hábitos e opiniões políticas de seus habitantes.
Há muitos que olham e não vêem. Excesso de hábito, talvez. Enxergar de fato a cidade é, com certeza, a melhor forma de tributar-lhe admiração. E, dela, extrair o prazer de pisar um determinado solo. De dizer ‘‘eu vivo aqui’’.
É possível olhar as coisas que já se tornaram lugar comum, como o sol filtrado pelas folhas das árvores de uma praça, ou escutar o som da água que jorra da boca do cavalo da Praça Garibaldi.
Mas ainda resta muito mais que isso. Resta ver/sentir os tipos estranhos em cada esquina, fechar os olhos e ouvir o burburinho do final da tarde. Conhecer o padeiro da esquina e lhe dar bom dia a cada manhã.
Andar pelas ruas pode proporcionar um imenso prazer. Não o andar pelos bonitos parques de Curitiba. Mas o andar pelas ruelas do bairro e perceber que cada um tem sua pequena identidade. Caminhar pelas ruas tortuosas da Barreirinha e redescobrir o que resta de tempos e memórias passadas.
Curitiba ainda é uma cidade de recantos pequenos, bucólicos até. É só sair das principais avenidas e tem-se a impressão de ter mudado de cidade ou voltado no tempo. E não se propõe aqui uma viagem ao passado, o saudosismo e o pensar que Curitiba já foi muito melhor. Pode ter sido, para alguns. Mas falemos de tempos atuais, de recuperar o olhar sobre as coisas que ainda temos, que estão à nossa volta.
‘‘Na cidade, todos os edifícios, sem exclusão de nenhum, são representativos e, com frequência, representam as malformações, as contradições, as vergonhas da comunidade’’, diz Giulio Carlo Argan, em ‘‘A História da Arte como História da Cidade’’. É isso que precisamos para olhar o que somos. As paredes rústicas e as velhas casinhas que convivem com prédios modernos. Quem pode julgar o que é melhor para a cidade?
É claro que é preciso olhar as coisas novas também. As mudanças pelas quais a cidade passou. Sem lamentos, até porque muitas delas vieram para melhor.
Não se trata de se colocar contra a preservação da memória. Mantê-la, e à identidade, é uma das coisas mais importantes que uma sociedade, uma comunidade ou um pequeno grupo podem fazer.
Mas viver o presente com os olhos de agora, para que, também o que temos hoje, não se torne memória esquecida, a ser recuperada, daqui a alguns anos.
Ah, sim, olhos estrangeiros costumam enxergar mais e melhor.
A cidade se revela com menos pudor aos olhos estrangeiros, não habituados à banca ao dobrar uma esquina ou ao florista do outro lado da rua. O olhar de quem vem de fora é sempre mais rico e revelador. Por certo um dia ele também acabará por habituar-se.
É como o olhar do fotógrafo, que, como diz Louis Stettner, deve ser o do estrangeiro que, ao chegar num país desconhecido, se deixa surpreender pelo que nunca viu antes, e, por isso mesmo, vê com clareza. ‘‘Quando chega a um lugar, o estrangeiro vê aspectos com muito mais clareza. No entanto, para conhecer o lugar profundamente, é preciso morar nele por algum tempo. E quando se olha muito tempo para uma mesma coisa, acaba-se hipnotizado, perde-se a capacidade de julgamento. Por isso é que, muitas vezes, as primeiras impressões são as que significam mais’’.
Mas a cidade, sempre inacabada, nunca deixará de oferecer algo novo aos olhos de quem enxerga.
É como diz Octavio Paz, numa referência aos Estados Unidos. Eles ‘‘são um projeto futuro que se realiza todos os dias. Diariamente há uma criação. Todos os grandes povos criaram coisas novas, mas os norte-americanos são provavelmente o povo que inventou mais coisas em menos tempo. Algumas terríveis, outras prodigiosas. É um povo que quando cessar de inventar, cessará de existir’’.
Pela clareza e profundidade da consideração, a impressão é que se pode aplicar a todo lugar...
Você já inventou sua cidade?Albari RosaAfastando-se apenas um pouco do centro de Curitiba, o cenário parece o de uma pequena
cidade do interior: as calçadas transformam-se em gramados, onde cavalos pastam tranquilos, enquanto casas que refletem o poder aquisitivo urbano convivem lado a lado com vacas preguiçosas no terreno baldioAlbari RosaNos bairros de Curitiba, as antigas casas que trazem para perto a influência dos imigrantes, relembram o tempo em que o viver era sem pressaAndar pela cidade
talvez seja uma das
formas mais doces
de conhecê-la

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