Vizinhos indesejáveis, mas nem tanto
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quarta-feira, 01 de abril de 2009
Carolina Avansini<br>Equipe da Folha 
Londrina - Delegacia, penitenciária, cemitério. Vizinhos indesejáveis à primeira vista, esses locais despertam sentimentos de amor e ódio nos moradores das casas próximas. Para alguns, o movimento que causam aumenta a sensação de segurança. Outros se incomodam com o vaivém de visitantes, com o trânsito dos carros e, no caso do cemitério, com a presença de insetos indesejáveis, como baratas e mosquitos.
A dona de casa Ana Nakane mora há 13 anos na vizinhança da Penitenciária Estadual de Londrina (PEL), no Jardim Acapulco (Zona Sul). Apesar de nunca ter sofrido assaltos ou qualquer outro tipo de ameaças, ela mantém os portões sempre fechados para dificultar a entrada de presos, caso haja fugas ou até mesmo uma rebelião. ''Violência tem em todo lugar, mas é bom não facilitar'', acredita Ana, que se incomoda também com os ruídos produzidos em algumas atividades realizadas pelos presidiários. ''Às vezes eles começam a cantar e tocar, o barulho me assusta'', diz.
Outra situação que aborrece a dona de casa é o trânsito de pessoas pedindo donativos, que sempre alegam ter saído da PEL. ''Eles falam que acabaram de sair da cadeia e que precisam de dinheiro para voltar para casa. Eu nunca ajudo, prefiro fazer doações para entidades e campanhas'', relata.
Apesar de morar ao lado de uma delegacia com carceragem, o 2º Distrito Policial (DP), que fica no Jardim Espanha (Zona Leste), a aposentada Zulmira da Costa Cruz não se incomoda com os vizinhos. Ao contrário, ela até gosta da presença constante dos policiais que trabalham na instituição. ''Minha filha queria que eu vendesse a casa e fosse para um apartamento, mas eu não quis. Gosto muito de morar aqui.''
Moradora antiga do bairro, ela construiu a casa antes da instalação do 2º DP. Quando começou a movimentação para instalar a delegacia, a família de Ana chegou a se assustar com a possibilidade de morar ao lado de uma carceragem, mas o preconceito foi logo dissipado pela presença dos policiais. ''Quando foge alguém, a polícia cuida'', conta.
No Jardim Pérola (Zona Leste), o garçom Jorge Roberto da Silva também não teme o movimento causado pelo Centro Integrado de Atendimento ao Adolescente Infrator (Ciaadi), onde ficam apreendidos jovens com menos de 18 anos. Segundo Silva, têm acontecido muitos assaltos em outras ruas do bairro, mas nas casas próximas ao Ciaadi ''os bandidos nem passam''.
O único incômodo causado pelo centro é o trânsito intenso de carros. ''Não dá para deixar as crianças brincarem na rua'', disse ele, que também procura manter o portão trancado nos dias de visita, quando aumenta o movimento de pessoas. ''Mas aqui é um ótimo local para morar.''
Questões de segurança não assustam o borracheiro Joaquim Vieira dos Santos, vizinho há oito anos do Cemitério Jardim da Saudade, no Jardim Planalto (Zona Norte). ''Mesmo os bandidos só entram no cemitério se estiverem mortos'', brinca. Santos plantou árvores na calçada do cemitério e cuida do local com carinho.
A principal reclamação do borracheiro diz respeito às baratas e ''mosquitinhos de defunto'' que aparecem principalmente quando o clima está quente. ''O problema é que instalaram um 'ossário' bem perto do muro, onde tem baratas, que entram nas casas.'' Apesar de satisfeito com o bairro, ele criticou também o preconceito de possíveis compradores de imóveis, que acabam desistindo do negócio por causa do cemitério. ''Quem quer vender não consegue'', sentenciou.


