Josoé de CarvalhoAtaqueA derrubada dos barracos: ‘A maioria quer terreno para especular e vender’, disse a presidente da associação de moradoresNo final da tarde de ontem moradores do conjunto Antonio Benzoni Vicentini (zona norte de Londrina) destruíram parte de 15 barracos que estavam sendo erguidos por famílias de sem-tetos, no fundo de vale da rua Parque Nacional do Rio Branco.
A destruição foi acompanhada por oito policiais militares que se deslocaram em quatro viaturas até local. Os cinco barracos derrubados estavam vigiados por crianças e mulheres. Os homens estavam trabalhando. Por pouco não houve confronto entre moradores e invasores.
A destruição dos barracos foi comandada pela presidente da associação dos moradores do conjunto, Iracema Ferreira Silva da Silva. Ela afirmou que os invasores eram oportunistas. ‘‘A maioria quer terreno para fazer especulação imobiliária e depois vender’’, disse. Até às 20 horas, o clima ainda era tenso no local.
Iracema culpou o juiz da 7ª Vara Cível de Londrina, José Cichocki, que na semana passada negou uma liminar de integração de posse de um terreno invadido da Prefeitura.
Josoé de CarvalhoMoradores armam bloqueio de rua: bate-boca com invasores
A presidente da associação do bairro também afirmou que a invasão da área teria sido incentivada pelo empresário e ex-presidente da Companhia de Habitação de Londrina (Cohab-Ld), Fuad Bauab, que possui terras nas proximidades. As afirmações foram confirmadas pelo desempregado Renato Ferreira do Nacimento, que participava da invasão. ‘‘O seu Bauab disse para nós ficarmos, pois era época de eleição e ninguém iria nos tirar daqui’’, contou Renato.
O empresário disse à Folha que as acusações contra ele são ‘‘pura intriga da oposição’’. Ele comentou: ‘‘Eu jamais incentivaria invasões. O que eu fiz foi defender meu patrimônio que seria invadido. Disse que fora de meu terreno eles podiam fazer o que bem entendessem’’.
Durante o quebra-quebra dos barracos, as mulheres e crianças invasoras choravam muito. Era o caso da artesã Joana Maria Amaral e seus cinco filhos, com idade entre 3 e 10 anos. No momento da derrubada, o marido dela estava trabalhando. Joana disse que tinha vindo do conjunto Cafezal (zona sul), onde morava em uma casa com dois quartos e dividia o aluguel com mais duas famílias.
Arlinda Viana Costa Clara teve também seu barraco destruído. ‘‘Eles acabaram de destruir meu sonho da casa própria. Ninguém tem esse direito de chegar aqui e desmontar o que a gente conseguiu. A gente gastou dinheiro comprando plástico e madeira’’, afimou Arlinda, que é viúva.
Josoé de CarvalhoPoliciais desfazem o bloqueio: por pouco não houve confronto
A ação não foi apoiada por todos os moradores do bairro. Muitos deles achavam que a invasão dos sem-teto era justa. Célia Eliana Moreira e Nilza Alves Pimenta, que moram na mesma rua da invasão, estavam revoltadas com a destruição dos barracos. As duas questionavam a liderança de Iracema e achavam desumana a sua atitude. ‘‘Aqui somos todos pobres e não podemos espantar esta gente. São crianças, mulheres e trabalhadores desempregados’’, disse Célia Moreira.
Pela manhã, Marilza do Nascimento esteve numa reunião de moradores anteontem mas não concordou com as opiniões de outras pessoas do bairro. ‘‘Acho isso injusto. Se fosse um bando de ladrões ou outra coisa... Mas é gente que trabalha.’’
A área invadida no Benzoni Vicentini fica a aproximadamente dois quilômetros de outra área invadida por sem-teto, também no sábado passado, mais precisamente no conjunto Ruy Virmond Carnascialli. O argumento para as duas ocupações é o mesmo: a falta de emprego e de condições para pagar aluguel.

mockup