Silvana Leão
De Londrina
Moradores do Jardim Marabá (zona leste de Londrina), que fica ao lado da invasão do Jardim Santa Fé, onde morava a garota Greice Carolina da Silva Melo, tiveram reação unânime quando souberam da morte de Ademir Justino da Silva, o ‘‘Doido’’, ontem de manhã. ‘‘Ele morreu muito rápido, tinha que ter sofrido mais’’, diziam.
Várias pessoas chegaram a demonstrar o desejo de ter linchado o assassino. ‘‘Tinha que ter trazido ele aqui, para a gente cuidar dele’’, disse um dos moradores da invasão. ‘‘Ele tinha que sofrer o mesmo que a minha filha sofreu’’, disse a mãe da garota morta, Marineide da Silva Melo, 26 anos.
Marineide não passou a noite de ontem em casa, com os outros dois filhos menores. Para a reportagem da Folha ela afirmou que não saiu para beber e que ficou andando de um lugar para outro durante toda a noite. ‘‘Até lá no lugar onde acharam a minha filha eu fui.’’ O vigia Ivan Antonio de Melo, tio de Marineide, não acredita nesta versão e acha que a sobrinha, que segundo ele é alcoólatra, passou a noite bebendo e ingerindo drogas. ‘‘Ela é minha sobrinha, mas só fala mentiras.’’
Poucas horas depois de acompanhar o enterro da filha, às 8h20 de ontem no cemitério Jardim da Saudade (zona norte), Marineide disse que estava se sentindo péssima. ‘‘Muita gente está me condenando, mas ninguém sabe a dor que eu estou sentindo. Ninguém está no meu lugar para saber.’’
Ela afirmou que pretende deixar os outros dois filhos com a mãe e arrumar um emprego onde possa morar. ‘‘Eu não quero voltar a beber. Só me restam os meninos e eu vou trabalhar para sustentá-los.’’ Marineide revelou que sentia muito medo do ‘‘Doido’’. ‘‘Minha filha já tinha falado para a minha mãe que ele tinha tentado abusar dela, mas como minha mãe não gostava dele, eu não acreditei’’, contou, admitindo que ‘‘gostava muito’’ do ex-companheiro.
Ivan Antonio de Melo informou que já entrou em contato com a assistente social da Prefeitura que trabalha no Jardim Marabá e pediu para que ela faça uma visita à casa de Marineide para ver as condições em que estão vivendo seus filhos. O melhor, na opinião do tio-avô das crianças, é que elas voltem para uma entidade de assistência social, onde estavam até o final do ano passado, quando Marineide e Ademir da Silva foram buscá-los.
‘‘Meu irmão, que é pai da Marineide, tinha tirado as crianças dela e levado para o Lar Anália Franco, porque sabia que ela é irresponsável e não tinha condições de cuidar dos filhos. Se estivessem lá, a Greice não tinha morrido’’, disse Ivan de Melo. Maria Rosália dos Santos, dona da lanchonete onde Marineide trabalha, contou que era comum a funcionária chegar bêbada no trabalho.
Segundo depoimentos de pessoas próximas à família, Marineide não era o único alvo do comportamento violento do catador de papel. ‘‘Eu vi ele batendo várias vezes nas crianças, mas quando a gente chegava, ele parava’’, revelou Sérgio Oliveira Mendes, vizinho que costuma ajudar Marineide a cuidar das crianças. Além de Greice e dos outros dois filhos mais velhos, Marineide é mãe de Bruna, de quatro anos, que foi adotada oficialmente por uma prima sua que mora numa propriedade rural em município próximo a Londrina.

mockup