Exercitar a imaginação é uma prática prazerosa, se realizada sem as complicações do campo material. Ela é capaz de levar ao êxtase, mas também incita o homem a reagir quando este identifica algum perigo. Numa cidade do interior, Zeca, homem extremamente religioso e adepto dos bons costumes, mantém esse tipo de raciocínio. Seu maior medo está no abstrato, numa eventual assimilação de Deus e o diabo como seres normais, assim como torcedores evitam projetar Maradona e Pelé num mesmo degrau.
Por causa dessa crença, Zeca recebeu a notícia da transferência da igreja que frequenta para frente de um motel como uma afronta. Logo que soube da localização do terreno doado pelo município, começou a pensar em como intervir na mudança, como fundamentar seus argumentos para evitar o pior.
Ele imaginou a construção do altar a poucos passos dos quartos com luzes vermelhas, vidros espelhados, banheira espumante e cama de casal com o único propósito que não o necessariamente defendido pela religião.
Zeca resolveu reunir os amigos para avaliar o impasse. A decisão foi unânime: a construção da igreja perto daquele estabelecimento, ‘‘onde o pecado muitas vezes mora dentro e não ao lado’’, poderia afastar os fiéis. O saldo do encontro foi uma pressão sobre a prefeitura, que resultou na doação de outro terreno, bem longe dos vizinhos ‘‘problemáticos’’.
Quem perdeu nesse episódio foi o dono do motel, que já contava com clientes loucos para realizar a fantasia sexual perto da igreja. A decisão da prefeitura evitou encontros constrangedores de amantes e fiéis na mesma avenida, mas manteve a disputa por casais entre os confortáveis quartos espelhados e o sugestivo matagal, que cederia seu espaço em prol da aproximação da fé e da luxúria.

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