Vizinhança incômoda
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quarta-feira, 17 de abril de 2002
Luka Morais 
Tem gente que não está nem aí para a vizinhança. Literalmente. Que o diga seo Rodrigo, morador de um luxuoso apartamento no centro de Londrina. Dias atrás ele foi obrigado a suportar a farra que a moçada fazia no quintal vizinho. A casa, com piscina no fundo, é usada para eventos. Desfiles, festas, lançamentos. Seo Rodrigo, que faz questão de sossego, quando percebe que o agito vai acontecer trata de se prevenir tomando uma boa dose de uísque. Consegue apagar mesmo com a gritaria, o som alto e as gargalhadas da moçada festeira.
Para não comprar briga com a vizinhança a gente faz um esforço extra. Afinal de contas não é todo final de semana que as festas acontecem ele pondera.
Quem acaba sofrendo com a medida antibarulho de seo Rodrigo é dona Cândida. A mulher amanhece com olheiras toda vez que acontece alguma comemoração na vizinhança. Como não é adepta do uísque, além de ter que passar a noite ouvindo a juventude em festa, ainda suporta os roncos do marido.
á É só ele tomar alguma bebida alcoólica e o ronco aumenta. Parece um trator numa pedreira exagera a mulher.
Seo Rodrigo já pensou em vender o apartamento, tão bem escolhido pela esposa e os filhos. Mas considera um desaforo o cidadão ter que abrir mão de seus direitos por causa de vizinhos barulhentos. Toda vez que pressente o início de alguma festa na vizinhança lembra do sujeito que morava num apartamento no Calçadão de Londrina e brigava para ter sossego
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Acabou desistindo e foi com a mulher e os filhos para uma chácara. Mas eu não. Fico aqui, gosto do lugar, do apartamento e vou resistir até o fim ele garante.
Numa madrugada dessas, seo Rodrigo perdeu as estribeiras. Depois de passar a noite anterior em claro, no velório de um conhecido, o homem acordou antes do sol aparecer por causa de um barulho incômodo. Virou-se de um lado para o outro. Colocou o travesseiro no ouvido, tentou manter a calma e nada. O ruído continuava. Insistente. Irritante. Não resistiu. Foi até a sacada do prédio e lançou, aos brados, o apelo ao vizinho insone.
Hei, você não poderia deixar para lixar a lataria desse carro quando o dia amanhecer? Não é possível um desrespeito desses. A gente quer dormir e não consegue. Que é que há companheiro???
O vizinho, diante da fúria do homem de pijama listrado, decidiu silenciar. Seo Rodrigo, de tão nervoso, não conseguiu mais pegar no sono. Dona Cândida, que já estava no sofá desde que o marido começou a se virar na cama, sentia o corpo moído e imaginava o tamanho das olheiras. Os vizinhos, que ainda não tinham acordado com o barulho feito pelo insone lavador de carro, acabaram despertando com os gritos do seo Rodrigo.
As pessoas têm que respeitar o sono alheio comentou, no dia seguinte, com o síndico, achando que tinha feito o melhor para o bem-estar da vizinhança.


