Vivendo os últimos dias com dignidade
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segunda-feira, 13 de outubro de 2014
Vítor Ogawa<br>Reportagem Local 
Londrina - Um abraço longo e apertado em meio as lágrimas foi a cena mais marcante registrada na antessala do auditório do Hospital do Câncer de Londrina (HCL) na manhã de ontem, no evento que celebrou o Dia Mundial dos Cuidados Paliativos. De um lado estava a secretária aposentada Elizabete Estela Alves, de 64 anos, e de outro a médica Etel dos Santos Fernandez, membro da equipe de cuidados paliativos.
Elizabete perdeu recentemente a irmã Neide, depois de um longo tratamento contra o câncer. Ela revelou que primeiramente a irmã, que tinha 50 anos, foi internada no HCL e posteriormente recebeu tratamento domiciliar. Destacou fortemente que o trabalho da equipe de cuidadores paliativos possibilitou que sua irmã sobrevivesse por mais quatro meses sem dores. "A gente só tem a agradecer, pois eles foram uns anjos para a gente. Minha irmã recebeu o carinho da equipe toda. Você ligava e eles estavam prontos para nos atender", disse, comovida.
Nos últimos oito anos muitas histórias foram vivenciadas pela Equipe Interdisciplinar de Cuidados Paliativos Oncológicos do hospital. Já aconteceram casamentos da única filha de um paciente na capela do hospital e de um outro paciente para garantir os direitos da parceira, além do reencontro de familiares com mais de 30 anos de separação. Se antes, diante de um diagnóstico de uma doença incurável, dizia-se que não havia mais nada a fazer, hoje se descobriu que há muito o que fazer. O controle de dor, de vômitos e outros sintomas que limitam a qualidade de vida sem contar no apoio emocional, espiritual e até social fazem parte desta gama de cuidados oferecida pela equipe.
Cuidados paliativos é uma expressão para descrever o ato de aliviar os efeitos das doenças incuráveis, uma vez que não podem mais ser ajudados pela atual medicina curativa. A palavra paliativo deriva do latim pallium, que significa manto. Quando a expressão foi cunhada, a analogia foi feita com o ato de prover um manto para aquecer aqueles que passam frio.
Segundo a médica Etel Fernandez, o fato de o paciente estar fora de possibilidade de cura não significa que está esperando para morrer. "Nós queremos que ele viva o tempo que tiver que viver com dignidade. Oferecemos qualidade de vida para ele e sua família. Se a gente não preparar essa família para isso, como ela vai viver depois?"
Etel afirmou que os médicos algumas vezes se revezam no tratamento devido à carga emocional com a qual precisam lidar. "A gente vai se ajudando. Embora seja um tratamento técnico, é impossível lidar com gente sem se emocionar. Se a pessoa não sente nada, não venha fazer cuidado paliativo. Cada um tem a sua maneira saudável de lidar com isso. Eu tenho um lado religioso mais intenso", expôs. Ela destacou que para a equipe é importante o paciente não ser submetido a tratamentos supérfluos sem perspectiva de cura e não seja levado a uma UTI longe da família, esperando a morte.
Com a voz embargada Elizabete disse aos que estão passando por essa situação para que tenham força. "Muita força e esperança. É o que a gente tem e é o que tenho a dizer, mas infelizmente tudo isso não depende da gente. Depende da vontade de Deus. Infelizmente nós temos o nosso tempo e Ele tem o tempo dele", resumiu.


