Silvana Leão
De Londrina
Sob o sol escaldante, homens e mulheres transitam à vontade no meio dos restos de comida, plásticos, aparelhos eletrônicos, latas, papéis, roupas, sapatos. O cheiro é insuportável para quem não está acostumado. Mas para as cerca de 30 pessoas que ganham a vida garimpando o aterro sanitário de Londrina, este é um detalhe sem importância. Trabalhar no lixão foi a opção que restou diante de um mercado cruel com quem pouco frequentou os bancos escolares.
O mais surpreendente é saber que, apesar do alto grau de insalubridade do lugar, também ali a concorrência é grande. Tanto que os ‘‘garimpeiros’’ que estão há anos no local impedem a entrada de concorrentes. ‘‘De fim de semana vem muita gente atrás de roupa e sapato, mas a gente não vai mais deixar entrar’’, diz Célio Ferreira da Silva, de 39 anos, garimpeiro há 18. Ele trabalha com a mulher, que o ajuda duas vezes por semana, e o filho.
O lixo que sai da casa de cada londrinense é o tesouro da família. Silva não hesita em defendê-lo. Até o mês passado, era dali que saía uma renda razoável, de até R$ 300,00 por semana. Agora que o lixo começou a ser ‘‘empurrado’’ (aterrado) à noite, o ganha-pão ficou comprometido. ‘‘A gente chega de manhã e não tem mais quase nada. Está dando para ganhar pouco mais de R$ 100,00 por semana’’, conta Célio.
Em casa, as bocas são várias. Além do filho mais velho, Hélio Fernando, que garimpa latinhas, há outros três. A caçula tem dois anos. Na residência da família, no Novo Amparo (zona leste) há objetos vindos de casas desconhecidas. Anteontem, o quarto ganhou uma cortina nova. Luzia, a mãe, fica de olhos atentos quando chega um caminhão carregado.
Ela não reclama do trabalho, diz que até gosta. No rosto simpático, Luzia exibe as marcas deixadas pelo duro dia-a-dia. As mãos, embora sejam envoltas em luva na hora de ‘‘pegar no pesado’’, trazem unhas encardidas. Elas trabalham rápido no trabalho de garimpagem de material reciclável. ‘‘Se eu não ajudar meu marido, ele não dá conta.’’
Resignada, a garota Angela Galiza Batista, 19 anos, bem que gostaria de voltar a estudar e, quem sabe, arrumar outro emprego. Há anos ela cumpre a mesma rotina de ir bem cedo para o lixão, onde passa o dia. Ali ela cata latinhas, faz suas refeições e... lê revistas. Nas páginas coloridas, conhece um mundo distante do seu.
Angela fala pouco, conta que nunca procurou outro trabalho. ‘‘Comecei a vir aqui com meu pai, há uns seis anos. Depois ele arrumou outro emprego e eu continuei.’’ Ela passou a adolescência ali, provavelmente reprimindo seus desejos de garota. Embora tenha cursado até o 3º ano do primeiro grau, não sabe quanto ganha juntando latas. ‘‘O que ganho dou para o meu pai.’’
E a crise, será que se reflete também no lixo? Célio da Silva garante que sim. ‘‘No começo a gente achava muito mais coisa.’’ O garimpeiro está preocupado com os boatos de mudança de local do aterro e a proibição de catadores de lixo no local. ‘‘Não sei fazer outra coisa’’, afirma.
O presidente da Companhia Municipal de Urbanização de Londrina (Comurb), Kakunen Kyosen, confirma os temores de Silva. ‘‘A mudança deve ser a curto prazo, mas não é simples, já que ninguém quer ter lixo por perto.’’
Para os garimpeiros, tudo indica que em breve terão que engrossar o grupo imenso de desempregados do País. ‘‘O trabalho destas pessoas não é regulamentado, e nada impede que a tecnologia ocupe o seu lugar.’’ Segundo o presidente da Comurb, a idéia é terceirizar o serviço de aproveitamento do lixo. Trocando em miúdos: uma empresa será contratada para explorar o filão e reverter a renda para os cofres do município.

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