Londrina – O noticiário às vezes lembra a Arca de Noé. Gatos, cachorros, galinhas são personagens de matérias, mas figuram quase sempre como vilões e as denúncias cheiram à intolerância. Ora alguém reclama da vizinha que coleciona gatos, ora alguém quer porque quer acabar com um galinheiro, porque as galinhas, quando não viram canja, fazem por mais tempo a sujeira típica da raça e os humanos torcem o nariz quando a titica não é deles.
Numa cidade de 500 mil habitantes, calculo que haja pelo menos cinco cães ou gatos para cada cidadão. Isso porque os bichos se reproduzem muito rápido. Sem anticoncepcionais de graça ou serviço do SUS que oriente o controle da natalidade, os bichinhos fazem o que natureza determina: nascem, crescem, se reproduzem. Alguns humanos, condoídos por sua situação subalterna, lhes dão abrigo e comida. Outros, insensíveis à piedade que um bicho rejeitado desperta, não entendem como alguém pode tolerar cães e gatos, galinhas e patos na convivência diária. Aí, a intolerância pode acabar em crime. Não daqueles que engrossam o noticiário policial. Mas vão me dizer que não é crime matar gatos a pauladas, dar ‘‘bolinhas’’ para os cachorros, furar os olhos dos pássaros e tantas barbaridades que passam ‘‘batidas’’ no noticiário comum? Como sabem, os bichos não reclamam, quem reclama é o homem.
Quando era criança, gato assassinado era notícia apenas no quarteirão. As crianças, assim como os bichos, conseguem detectar maldades e bem sabíamos quem gostava e não gostava de animais. Fazíamos disso uma questão de honra condicionando os inimigos ao desprezo. Lembro da velha Arminda, cuja mão sequinha era especialista em envenenamentos. Na sua despensa, supúnhamos, os raticidas tinham mais espaço que os alimentos. Foi de sua autoria, sem dúvida, a morte do gato Bartô, um vira-latas que apareceu com os olhos revirados, botando baba para fora. Veneno dos perigosos. Quando Bartô morreu, juramos vingança e fomos buscar na despensa da velha o raticida esbranquiçado que, segundo a embalagem, matava só de olhar para ele. Não olhamos. Mas substituímos na lata o veneno por farinha. E quando Arminda tentou matar o cachorro Lalau e mais três ou quatro gatos desprotegidos nos divertimos. A velha espalhava farinha nos bifes a colheradas. Na manhã seguinte os bichos apareciam gordos e satisfeitos. A velha não entendia se os gatos tinham sete ou mil vidas.
Resgato a história, só para determinar que gente como Arminda não merece consideração. E arrepio em pensar que a implicância com os galinheiros da cidade pode gerar o extermínio de um espaço de convivência entre o homem e o animal. Digo e repito: gostar de bichos é humano, profundamente humano. Não imagino as crianças sem animais de estimação. Com eles se aprende outras naturezas da linguagem. Ou vai dizer que não tem graça o ti-ti-ti do galinheiro?
Tomando o espaço das denúncias, apelo ao bom senso dos humanos para que não impliquem tanto com os animais. Hoje, nas cidades, morre-se muito mais da poluição dos carros do que do cheiro do xixi que Rambo fez na rua. Acho que tudo tem que ter seu lugar e dono de bicho tem que zelar pela sua higiene. Mas, francamente, as pessoas deveriam se preocupar mais com o lixo que desovam nas calçadas do que com a sujeira dos galos que não encontraram penico.

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