Viúva diz que Bernardino já
havia sido assaltado dez vezes
Israel Reinstein

Mauro Frasson
Neuza Evangelista diz que rezava todas as noites pela segurança do maridoEram 5 horas da manhã quando Neuza Aparecida Evangelista soube da morte do marido, o cobrador Bernardino Alves de Melo. Acordada pelo pai, ela foi informada que Bernardino estava no IML para reconhecimento. ‘‘Eu não sabia o que era IML. Meu pai respondeu que era o local onde ficavam os mortos’’, lembrou chorando Neuza. Desolada, ela se perguntava por que Deus tinha escolhido seu marido. Mas Bernardino não foi o único. Outros dois cobradores foram assassinados no ano passado e 25 motoristas e cobradores foram feridos em assaltos.
Há um ano, o cobrador Sérgio Rosa de Lima quase teve o mesmo destino. Ele levou um tiro na barriga e perdeu um rim. Sérgio ficou dez dias internado na UTI do hospital. ‘‘Junto com os R$ 65,00, os bandidos levaram junto parte da minha saúde’’, disse. Na profissão há dez anos, o cobrador já foi assaltado dez vezes depois do tiro. ‘‘Todas as vezes acreditei que podia morrer’’, afirmou.
A morte também quase levou Saulo Nunes de Oliveira. Há sete dias, dois jovens entraram armados no ônibus tentando roubar R$ 6,00, que tinha na primeira viagem. ‘‘Um deles disparou, irritado com a falta de dinheiro, mas a bala não saiu do revólver porque a arma engasgou’’, contou.

Mauro Frasson
O cobrador Sérgio Rosa de Lima perdeu um rim durante um assaltoDesemparada- A mulher de Bernardino, Neuza Maria Evangelista, está agora desamparada. Sem seguro de vida, vai ter de trabalhar para sustentar a casa. Bernardino e Neuza tinham acabado de quitar uma casa de 80 metros quadrados, no bairro Tatuquara. ‘‘Vivemos felizes, pensando em ter um beb꒒, contava Neuza ontem, falando no presente sem assimilar a morte do marido.
Neuza disse que sempre pedia para o marido se cuidar durante as viagens. ‘‘Ele já tinha sido assaltado outras vezes, por isso rezava todas as noites para ele voltar’’, contou. A irmã do cobrador assassinado, Rosane de Fátima Alves de Melo, também confirmou que esta não foi a primeira vez que ele foi assaltado. ‘‘Meu irmão sempre reclamava da falta de segurança onde ele trabalhava’’, disse. ‘‘Esta deve ser a décima vez que isto acontece’’.

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