Em 35 dias, a dona de casa Andreana Gomes da Silva de Souza, 32 anos, viveu um dos dias mais felizes e o mais triste de sua vida: primeiro, o casamento com o companheiro de seis anos de convivência, depois, a morte trágica do marido, vítima de um tiro no abdômen, ao evitar um assalto numa revendedora de álcool. O crime aconteceu na Zona Norte de Londrina, no final da tarde do último dia 10. Andreana agora tenta juntar forças para enfrentar a perda e consolar o filho do casal, de 1,7 ano, e como se esta já não fosse uma carga quase insuportável, tem que encontrar formas de driblar os problemas práticos, como a falta de dinheiro para comida e remédios.
Alexandre de Souza, 33 anos, marido de Andreana, era soldado da Polícia Militar, e estava em uma revendedora de álcool justamente no momento em que dois assaltantes invadiram o estabelecimento. Mesmo em licença médica, Souza tentou dominar os ladrões, que trocaram tiros com ele. Segundo a polícia, Rogério Manoel de Araújo, 22 anos, atingiu o soldado ao disparar seu revólver calibre 38. ''Ele tinha acabado de me ligar, pediu para que eu me aprontasse e desse banho no nenê para irmos ao supermercado'', conta Andreana.
Por causa dos trâmites burocráticos, a expectativa é que ela só comece a receber a pensão a que terá direito no final de maio. A demora assusta a dona de casa: ''Como vou viver até lá, se não tenho dinheiro nem para comprar fraldas para o bebê? Tenho ido nos locais onde ele tinha feito dívidas, como supermercado e o banco em que fizemos um empréstimo para pagar prestações atrasadas da casa, e eles me dizem que agora eu tenho que arcar com tudo'', preocupa-se, sem esconder as muitas lágrimas que brotam com facilidade.
Andreana conta que não tem conseguido ficar na casa que eles moravam, no Jardim Maria Celina, perto de onde o marido foi morto. O filho, que leva o nome do pai, adoeceu e tem dificuldades para comer. ''Quando entramos em casa ele procurou o Alexandre em todos os cômodos e não parava de chamá-lo. Os dois eram muito apegados'', revela Andreana, que também viu uma gravidez de três meses interrompida por conta de uma queda, resultante de desmaio sofrido no dia do enterro.
Depois de passar alguns dias na casa de amigos, ontem ela resolveu ir para a casa da mãe, no Jardim Tóquio (Zona Oeste). Enquanto isso, espera a dor ''esfriar''. ''Rezo por ele todos os dias, seguro a aliança dele, que eu mesma tirei de seu dedo, e peço para que me ajude a criar nosso filho. Eu sei que ele vai me ajudar.'' Segundo Andreana o marido fazia parte da corporação há 15 anos e se recuperava de fratura na perna sofrida durante o trabalho.
De acordo com o chefe de planejamento de operações do 5º Batalhão da Polícia Militar (BPM), major Sérgio Dalben, alguns documentos necessários para que Andreana receba os benefícios a que tem direito, como auxílio funeral, foram encaminhados ontem para o comando da PM, em Curitiba. ''Também já foi aberto um processo de sindicância, necessário para seja feita a exclusão do soldado da corporação e a viúva passe a receber a pensão. Trata-se de um documento formal, necessário mesmo diante das circunstâncias em que a morte ocorreu.''
Dalben afirmou que a situação da família de Souza preocupa os colegas de profissão. ''É uma situação dolorosa sob dois aspectos: porque perdemos um companheiro de farda e porque as famílias de todos nós que estamos aqui estão sujeitas a viver problemas semelhantes. Realmente é muito difícil, em um momento como este, entender os trâmites burocráticos, mas infelizmente não há outro jeito.''
Anteontem a polícia prendeu dois adolescentes suspeitos de terem atirado em outro policial militar, Jorge Kobayashi, no dia seguinte à morte de Souza. Kobayashi encontra-se internado na Santa Casa de Londrina, e ontem foi submetido a cirurgia para retirada da bala de sua coluna e avaliação das lesões.

Serviço: Os interessados em ajudar Andreana de Souza podem entrar em contato pelo telefone (43) 9142-9019.

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