Lúcia Mainko da Silva, 55 anos, mora aos fundos da Fazenda Santana, em uma casinha de madeira distante 11 quilômetros da cidade de Campo Bonito, no Oeste paranaense. Ao lado, mora seu filho, Marcos, 19 anos, a esposa Reni, 21, e o filho do casal, Rafael, nascido há 6 meses. Na frente da casa de Marcos, uma bandeira do MST desfraldada. Na mão de dona Lúcia, a aliança de casamento com Diniz Bento da Silva, o Teixeirinha, líder da ocupação da fazenda no início de 1993. Os três adultos dividem o tempo entre plantar e recordar fatos que envolveram a morte de Teixeirinha.
A morte foi um dos episódios mais graves da história da disputa fundiária no Paraná. No dia 3 de março de 93, um grupo de sem-terra matou três policiais militares que foram ao local ‘‘em missão’’, segundo versão sustentada na época pela PM. Segundo os sem-terra e o próprio MST, os policiais, que estavam à paisana, acompanhavam um madeireiro, dando-lhe proteção para a retirada de pessoal e equipamentos utilizados para o corte de árvores na fazenda. Por isso, teriam sido ‘‘confundidos com jagunços’’, e as mortes ‘‘ocorreram em confronto’’.
Um grupo especial da PM fez muitas prisões. No dia 8 de março, localizou o líder Teixeirinha (na época com 47 anos) no meio do mato. Ele foi morto, segundo a PM, ‘‘durante confronto’’. Conforme versão do MST e de Lúcia e Marcos da Silva, foi ‘‘executado sumariamente’’. Os episódios da Fazenda Santana provocaram um agravamento nas relações entre policiais e sem-terra. Lúcia Mainko da Silva e seu filho tentam conseguir, pela via judicial, reparação do Estado, por danos morais e materiais decorrentes da morte de Teixeirinha. O mesmo tentam as viúvas dos policiais.
Seis sem-terra que haviam sido presos foram soltos pelo não-cumprimento de prazos processuais, e aguardam julgamento. A defesa arrolou 50 testemunhas, a maior parte ainda não ouvida, o que indica que o processo pode se arrastar ainda por vários anos. Há um outro processo relacionado ao caso, motivado por acusações de Joni Varisco, ex-secretário de Trabalho do Governo Lerner, segundo o qual o senador Roberto Requião, na condição de governador, teria mandado matar Teixeirinha em represália pela morte dos PMs, o que é negado por Requião.
Lúcia Mainko da Silva o filho, a nora e o neto são uma das 46 famílias (das 320 que havia em 93) que permanecem na Fazenda Santana, ainda sem titulação definitiva. Na última safra, eles colheram 300 sacas de milho e 200 de arroz. ‘‘Dá para tocar a vida’’, diz a mulher. Mas pergunta com tristeza: ‘‘Como vou esquecer tudo o que aconteceu?’’
Segundo Lúcia, Marcos não consegue ‘‘abafar’’ a amargura e às vezes chora. ‘‘Teixeirinha era um líder respeitado pelos companheiros. Acho que por causa de sua luta e seu sacrifício, hoje muitas famílias estão na terra’’, diz. Ela reafirma que a reforma agrária é possível, ‘‘basta o governo querer’’.

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