Dorico da SilvaDor e revoltaLuzia Victorette: ‘Ele voltou num caixão. Não tem lei pra isso?’ A viúva Luzia Micheletti Victorette, 67 anos, acusa médicos da Santa Casa de mau atendimento ao marido dela, Orlando Victorette, 77 anos. Ela não se conforma com o tipo de tratamento que o marido recebeu no hospital. Ele morreu na terça-feira, dia 11, à noite, mais de oito horas depois de ter dado entrada no hospital e permanecer, segundo Luzia, sem atendimento adequado. ‘‘Estou revoltada com isso porque se tivessem socorrido logo ele não teria morrido à mingua.’’
Victorette começou a se sentir mal no domingo, dia 9, e foi levado por Luzia ao hospital Eulalino Inácio de Andrade, o Zona Sul. Ele sentia dores nas pernas, bexiga e estômago e vomitava bastante, conforme Luzia. No hospital foi informada que isso não era caso para internamento. ‘‘Eles deram soro e liberaram’’, conta a viúva. Mas no dia seguinte Victorette teria piorado e voltado ao Zona Sul. ‘‘Um médico disse que ele tinha osteoporose e outro disse que era gastrite. Deram remédio para o estômago e AAS, mas não adiantou nada.’’ Como o estado do marido só piorava, Luzia tentou mais uma vez levá-lo ao hospital na terça-feira.
Depois de lhe dizerem, no hospital Zona Sul, que não atenderiam o caso, acabaram consultando Victorette. Mas ao ouvir o mesmo médico que atendera o marido no dia anterior recomendar para que lhe dessem ‘‘um remedinho só para enganar’’, Luzia resolveu levá-lo para outro hospital. ‘‘Nem deixei dar remédio’’, disse. Luzia não sabe os nomes dos médicos que atenderam o marido.
A diretora geral do Hospital da Zona Sul, Dijamedes Maria Garrido, não acredita que os médicos ou enfermeiros tenham dito isso. ‘‘Não tenho como contestar porque eu não estava lá na hora, mas acho difícil ter ocorrido porque são profissionais, tem um CRM (registro médico), Coren (registro de enfermagem) e ainda existe a prescrição que é assinada por eles’’, disse a diretora. ‘‘Não digo que ela (Luzia) esteja mentindo mas não acho que falaram isso, ainda mais na frente do paciente.’’
Segundo Dijamedes, que consultou os prontuários de atendimento de Victorette e teria conversado com os três plantonistas que o atenderam, o médico da terça-feira chegou a cogitar o internamento do paciente. ‘‘O médico me disse que ia medicá-lo, aguardar a evolução e provavelmente interná-lo para melhor investigação. Mas, conforme prescrição da supervisão de enfermagem, ele se evadiu do hospital.’’ Na triagem, segundo Dijamedes, Victorette se queixava de dores nos membros inferiores e no estômago e vômito. No segundo dia que esteve no hospital, de acordo com a diretora, o plantonista era um gastro. ‘‘Foi constatada uma gastrite. Ele foi medicado, observado e quando melhorou foi liberado.’’
Após sair do Hospital Zona Sul, Luzia levou o marido à Santa Casa, onde chegou por volta das 14 horas. Em 20 minutos, ele foi atendido pelo plantão. Segundo ela, logo foram providenciados exames - Raio X dos pulmões, sangue e urina - mas até o momento ela desconhece os resultados. Victorette teria sido colocado em uma cama perto da enfermaria para receber soro. Uma hora depois, segundo conta, quando o soro acabou, ela pediu para que o levassem à Unidade de Terapia Intensiva (UTI). ‘‘Pediram para esperar o especialista de coração’’, lembra. Mais uma hora de espera. ‘‘Quando ele examinou, falou que o caso do meu marido não era bom e me avisou para não deixá-lo sozinho.’’
Diante da afirmação do médico, Luzia resolveu pagar o tratamento na tentativa de conseguir um atendimento mais ágil. Por volta das 19h30, segundo ela, é que vieram os papéis para o internamento, que só ocorreu pouco depois das 22 horas. Toda a demora teria ocorrido porque Luzia não tinha o dinheiro na hora e não trabalha com cheque.
Foi pedido, segundo Luzia, um depósito de R$ 2 mil. ‘‘Sugeri assinar uma nota promissória até pegar o dinheiro no banco no outro dia, mas não aceitaram.’’ O internamento ocorreu depois que Luzia conseguiu um cheque da patroa da filha. Mas era tarde. ‘‘Quando paguei encheram ele de remédio mas não adiantou mais. Quando sentaram meu marido na cama, ele endureceu.’’ Em seguida, ele teria sido levado para a UTI. ‘‘Disseram que era para ver se ele voltava, mas ele já estava morto.’’
A viúva acredita que Victorette morreu por falta de recursos médicos, mesmo estando no hospital. Ele teve enfarte. ‘‘Saiu andando de casa e voltou num caixão. Não tem lei para isso? Que hospital é esse?’’ Além de perder o marido em condições que, ela acredita, deveriam ter sido diferentes, Luzia reclama dos R$ 300,00 que teve que pagar se quisesse recuperar o depósito inicial. ‘‘Como é que podem cobrar se nem remédio ele recebeu no quarto?’’ Segundo ela, Victorette teria morrido em menos de cinco minutos depois de ser internado.
Na opinião do diretor clínico da Santa Casa, Marcos Campos, a população tem razão em reclamar do atendimento. Ele ressalta que esse não é um problema da Santa Casa e sim dos hospitais em geral que atendem pelo Sistema Único de Saúde (SUS). ‘‘A população precisa entender que nós também reclamamos das condições de trabalho’’, diz o diretor clínico. ‘‘É impossível tratar a população como ela deve ser tratada.’’
Campos acredita que o fato do atendimento ter sido acelerado, conforme Luzia descreve, após o pagamento, deve ter sido uma ‘‘coincidência’’. Ele assegura que, se ela tivesse pago antes, teria que esperar do mesmo jeito. O problema, segundo o diretor clínico, está no número de vagas. Ele afirma que, às vezes, um doente da emergência do Pronto Socorro chega a esperar até 4 horas por uma vaga na UTI.
Ele explica como funciona essa dinâmica - um doente só é transferido à UTI quando alguém da unidade tem que ser liberado para o setor de internamento, mas isso só se um paciente receber alta. ‘‘Temos conseguido até altas precoces para liberar vaga.’’ Mesmo sem números, Campos afirma que a rotatividade da UTI é ‘‘muito alta’’. A Santa Casa possui 20 leitos na UTI.

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