Vítimas do nazismo lutam por indenização
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 29 de novembro de 2007
Donizete Oliveira<br> Especial para a Folha 
As cercas de arame farpado e o grito dos soldados nazistas são lembranças que os irmãos Hluchow não conseguem esquecer. Micolay, 70 anos e Valentim, 66, dois agricultores ucranianos que moram em Doutor Camargo, no Noroeste do Paraná Valentim, estão se preparando para mais uma batalha: eles querem receber na Justiça uma indenização por danos físicos e psicológicos que sofreram em um campo de concentração nazista durante a Segunda Guerra Mundial.
Acompanhados dos pais, eles passaram 13 meses no campo comandado pelos alemães, que ficava na região de Papenburg, entre a Alemanha e Holanda. Valentim, então com cinco anos, tem maiores sequelas psicológicas. Até hoje, ele toma um remédio de uso controlado, sofre de insônia e se assusta com o barulho de qualquer avião em função dos vários ataques aéreos que viu na época.
No campo de concentração, centenas de famílias trabalhavam na extração de turfa (espécie de carvão fóssil, resultante da fermentação de musgos e plantas aquáticas oriundos de canais de água parada). Em troca do trabalho, eles recebiam uma porção de comida à base de raízes comestíveis que, para os irmãos, não passava de lavagem. Enquanto os pais extraiam turfa, as crianças ficavam em grandes galpões, que serviam de alojamentos coletivos. Muitas morriam de diarréias e outras doenças infecciosas. A mais frequente era a tuberculose, que matava também muitos adultos. ''Ver gente definhar na cama até morrer desse mal era comum'', recorda Mikolay.
Valentim tem dificuldade de falar sobre o assunto e só o faz na presença de Mikolay, que lhe dá força para relembrar das agruras que sofreram. Para os irmãos, embora seus pais tenham sobrevivido, a indenização é mais que uma questão de dinheiro. ''O que sofremos não tem dinheiro que pague; queremos, sobretudo, o reconhecimento do Estado alemão'', afirma o agricultor, lembrando que seu pai, no Brasil, por muito tempo, não podia ver polícia. ''Ele tremia de medo, como se fossem lhe fazer algum mal''.
Segundo os irmãos, muita gente era fuzilada pelos guardas alemães que os vigiavam durante o trabalho. Se alguém tivesse com algum problema e fosse reclamar, corria o risco de ser agredido ou morto. ''Você tinha de falar com jeito, mas, mesmo assim, podia ser mal interpretado e levar um tiro ou uma pancada na cabeça'', conta Valentim. ''Tudo era feito com muita brutalidade''.
Outro problema eram as mortes dos soldados inimigos, principalmente russos, que ficavam presos em galpões localizados no mesmo campo de concentração e eram executados pelos alemães durante o dia quando as crianças estavam sozinhas. ''Aqueles gritos eram pavorosos e até hoje não saem da minha cabeça'', lembra Valentim. ''Você sabia que ali do lado estavam matando gente''.
Com o fim da guerra, os pais deles vieram para o Brasil. Do Rio de Janeiro seguiram para o Paraná. Eles moraram em Apucarana, Campo Mourão e, depois de alguns anos, se mudaram para Doutor Camargo. Com a morte dos pais na década de 70, os irmãos passaram a tomar conta do sítio de cinco alqueires que pertence à família.
A primeira tentativa em busca de indenização pelos maus tratos que sofreram foi uma carta enviada à Organização Internacional para as Migrações (OIM), entidade que cuida de vários pedidos semelhantes à Justiça alemã. Em resposta traduzida para o espanhol, a OIM alega que os danos sofridos por eles prescreveram e não são suficientes para formular pedido de indenização. Os irmãos, no entanto, não desistem e prometem lutar. ''Queremos provar que nosso caso foi muito grave e que isso não volte a acontecer com outros seres humanos'', diz Valentim. ''Crimes como esse precisam ser reparados para que a humanidade aprenda a lição'', completa Mikolay.


