Rolândia – Dos 53 anos da vida de Josias Pereira Alves, morador de Rolândia (Região Metropolitana de Londrina), 12 foram trancados dentro do Hospital Psiquiátrico do Juqueri, em Franco da Rocha, na Grande São Paulo. Ele foi apenas um dos milhares de "zumbis", como definiu a irmã Rita Alves, que foram esquecidos no manicômio mais famoso do Brasil. Até hoje, o município de 141 mil habitantes é associado ao hospício. Pudera, o hospital do Juqueri chegou a abrigar 14 mil pessoas na década de 1960. Hoje, com mudanças das políticas de saúde pública, são menos de 200.
Com a Reforma Sanitária em todo o País, a diminuição de internos também ocorreu na Casa de Saúde de Rolândia, onde Edson Katsumi Ioshitaqui, de 50 anos, foi internado por 13 vezes entre 1993 e 2002. Apesar de apresentarem o quadro de esquizofrenia, os dois pacientes do Centro de Atenção Psicossocial (Caps 2) de Rolândia pouco têm em comum. Alves tem apenas o primário, morou nas ruas em São Paulo e chegou a ser dado como morto pela família por quase 10 anos, quando uma assistente social conseguiu localizar uma irmã dele, em Osasco (SP). Neste meio tempo, chegou a assumir outra identidade. Carregava até RG com nome de Caetano.
Já Ioshitaqui chegou a cursar até o 5º ano de Medicina na Universidade Estadual de Londrina (UEL), mas os problemas psiquiátricos se agravaram e fizeram com que ele abandonasse os estudos. No entanto, os dois são lúcidos em avaliar: "o internamento não foi a melhor solução". Os traumas são visíveis no semblante quando eles se recordam da experiência traumática nos manicômios.

Reinserção
Para o coordenador de Saúde Mental de Rolândia, Érico Alencar da Silva Ignácio, os dois são exemplos de que, independente de classe social, grau de instrução, o tratamento que visa a reinserção na sociedade é o que obtém os melhores resultados. Os depoimentos deles são usado para reforçar a Semana de Luta Antimanicomial no Brasil, comemorada de 13 a 18 de maio, dia do Encontro dos Trabalhadores da Saúde Mental, na cidade de Bauru, São Paulo em 1987. O movimento iniciado naquele ano prega o fim dos manicômios e um tratamento mais humano e individualizado para pacientes com distúrbios mentais.
Segundo a responsável pelo Caps, a educadora física Márcia Massa, Alves e Ioshitaqui foram vítimas do antigo sistema. "Nosso objetivo é formar grupos de reinserção social. Hoje saímos com eles nas ruas, os comerciantes já os conhecem e agem de forma natural, quebrando esse rótulo da loucura", disse. Segundo ela, a sociedade está progredindo, mas ainda tem muito a evoluir. "Acredito que o nosso pontapé é muito importante para os resultados que serão obtidos nas futuras gerações", destaca.

Sequelas
As sequelas de mais de uma década de internamento não permitem que Alves converse com clareza. "Era muito pior antes, por isso ele passou tanto tempo internado. Ninguém compreendia o que ele falava", contou Rita. Ela disse que a alegria de saber que o irmão estava vivo foi sucedida pela tristeza em ver as condições em que ele vivia. "Sabe aqueles filmes de zumbi? Era exatamente aquilo. Todos com um camisão branco no meio do pátio, vagando sem rumo. Era horrível", lembrou. Ela assume parcela de responsabilidade pelo destino do irmão. "A família é muito importante. Essa falta de proximidade permitiu que isso ocorresse".
Apesar de morar com os pais, Ioshitaqui confessa que ainda guarda certa mágoa e a relação é instável. "Na época eu fiquei muito revoltado com as internações, pois elam matam a alma da pessoa. Não deveriam ter feito isso", condenou. Segundo ele, o apoio da família é fundamental para o paciente superar as crises. Para ele, o modelo de tratamento do Caps, que conta com oficinas de artesanato e leitura de jornais, é exemplo. "Foi a melhor coisa instituída na cidade, pois tende a impedir novas internações".

Filme
O Caps segue com programação da Semana da Luta Antimanicomial em eventos internos e, no dia 24 de maio, às 14h30, no Centro Cultural Nanuk, vai exibir o filme Uma Mente Brilhante, dirigido por Ron Howard (EUA). O evento é gratuito e aberto a toda a população. Segundo Márcia, o tema é: "Se não nos deixam sonhar, não os deixaremos dormir".

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