Vítimas de acidente na PR-445 podem perder visão
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segunda-feira, 29 de setembro de 1997
Luka Morais 
Londrina
Milton DóriaPó brancoA doméstica Avanete de Jesus, que sofreu queimaduras: Parecia que tinha algo furando o olhoPelo menos duas das 12 vítimas do acidente com ônibus da empresa Francovig que se chocou com um caminhão carregado de cal, na última quinta-feira, correm o risco de ter a visão afetada. O oftalmologista da Santa Casa de Londrina, Marcos Cascardo, que vem acompanhando os pacientes que tiveram lesão nos olhos provocada pela cal, afirma que alguns casos são mais graves devido à extensão da queimadura. A queimadura por álcali (componente da cal) é tão grave quanto a provocada por ácido, compara o médico.
Na avaliação de Cascardo, ainda não é possível afirmar se os pacientes que tiveram queimaduras mais extensas poderão sofrer a perda da visão, mas existe a preocupação devido ao tamanho da lesão em alguns casos. É preciso esperar o processo de cicatrização da córnea, que demora alguns dias.
Como a córnea é a primeira camada do olho, o oftalmologista teme que, com o início da cicatrização, as partes afetadas acabem ficando opacas, impedindo a entrada da luz. Temos dois casos mais graves, com queimaduras bilaterais (nos dois olhos) e lesões maiores, revela Cascardo. Ele não quis identificar os pacientes que correm risco de lesões sérias na visão.
O oftalmologista adverte que, por ser um componente químico que provoca a destruição da células, a cal precisa ser removida rapidamente da área atingida. No caso dos olhos, o ideal é abrir uma torneira e deixar que a água caia sobre a parte atingida até remover toda a substância química. Quanto mais tempo a cal permanecer, maior será a queimadura, diz Cascardo.
O acompanhamento dos pacientes que tiveram queimadura nos olhos, diz o médico, é imprescindível. Muitas vezes uma pequena lesão pode ter consequências sérias se não for tratada. Ele revela preocupação com o índio Valdemar Marcolino, que esteve internado na Santa Casa durante dois dias, mas não quis ficar no hospital e foi levado de volta para a reserva do Apucaraninha, em Tamarana.
O administrador da Funai em Londrina, Joventino Domingues, explicou que Marcolino ficou muito assustado e quis, no sábado, voltar a pé para a reserva. Nós o levamos de volta mas ele já aceitou retomar o tratamento. A filha do caingangue, a menina Claudinéia, de cinco anos, que também sofreu queimadura nos olhos, retornará ao atendimento na Santa Casa.
Enquanto aguardava o atendimento, a doméstica Avanete Maria de Jesus, 32 anos, que mora perto de Tamarana, falou da dor causada pela queimadura provocada pela cal no olho: É terrível. Ela conta que no momento do acidente viu apenas o pó branco que tomou conta do interior do ônibus. A gente não conseguia respirar. O nariz e a garganta queimavam, relata. Horas mais tarde, internada no Hospital São Francisco, de Tamarana, a dor foi ficando mais forte. Parecia que tinha algo furando o olho.
Outra vítima de lesão no olho foi Jurema Gouveia Soares, 49 anos, moradora em Tamarana. Ela estava sentada no terceiro banco logo atrás do motorista. Não vi nada. Acordei no hospital quando me limparam a vista.
Jurema teve queimadura nos dois olhos, mas um deles já está livre do tampão. Ela estava sendo atendida no Hospital de Tamarana mas no sábado, devido ao aparecimento de uma mancha branca no olho esquerdo, foi encaminhada para Londrina. Fizeram um exame e parece que já está melhorando, graças a Deus.
Dos 17 feridos no acidente, cinco continuam internados em hospitais de Londrina: o motorista do ônibus, Pedro José da Silva, 45 anos, que teve politraumatismo; Davi Margarida Vilella, 58, que teve fratura buco-maxilar; Pedro Martins de Oliveira, 54, com traumatismo raque-medular; e Anderson Leandro Gonçalves, 19 anos, que sofreu fraturas nas duas pernas.


