Vítimas da violência tentam reconstruir a vida
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sexta-feira, 18 de julho de 2003
Adriana Savicki<br>Reportagem Local 
Sete igrejas evangélicas da zona norte norte promovem hoje uma caminhada pela paz (ver matéria nesta página). A iniciativa cai como uma luva em uma cidade que já registrou neste ano 126 homicídios e outras dezenas nos municípios da Região Metropolitana. Cada crime deixa para trás uma família órfã que tem que conviver, muitas vezes, com a forma absurda e sem sentido com que a violência entrou em suas vidas.
Foi por causa de um chápeu de palha que a dona de casa Fátima Soares de Araújo, 37 anos, perdeu o marido, o garçom Jorge Ramos dos Santos. A história desse crime beira o inacreditável. Ele foi morto por desconhecidos que implicaram com o chapéu dentro do ônibus linha 307 quando voltava para casa, em Cambé (13 km a oeste de Londrina), no início da madrugada do último dia 29. Ele desceria no próximo ponto.
As testemunhas, várias pessoas estavam no veículo, afirmaram à família que o grupo, possivelmente de adolescentes, começou a fazer chacota do chapéu. A brincadeira, recebida pelo garçom com espírito esportivo, começou a ficar mais acirrada e um dos homens partiu para agressão. Ramos foi derrubado por dois chutes e, quando tentava reagir, levou dois tiros. O grupo fugiu e ninguém foi preso. ''Eu até tinha falado para ele não ir com aquele chapéu que tinha ficado esquisito, mas ele foi vestido para festa junina (da lanchonete onde trabalhava)'', conta a viúva.
''Até hoje fico me perguntando como é que foi acontecer logo com ele que era uma pessoa tão alegre, tão de bem com a vida'', desabafa Fátima. Ela conta que o marido era brincalhão e costumava fazer amizade fácil.
Desempregada e com o filho Alex para sustentar sozinha, Fátima tem sobrevivido com a ajuda dos amigos e dos muitos conhecidos do marido. ''Deus abençoe, tem gente que eu nem conheço que veio aqui me deixar uma cesta básica e um dinheirinho'', conta.
Solidariedade de amigos e familiares é também o ponto de apoio da vendedora J.S., 22 anos. Ela e os quatro filhos presenciaram a execução do marido, o comerciante Lucimar da Silva, 30 anos. O crime aconteceu em frente à sua casa, no Jardim do Sol (zona oeste), no último dia 6. Um suspeito de ter sido o autor dos disparos está preso.
Desde esse dia, J. teve que abandonar a casa por medo de represálias. Nesse meio tempo, a residência foi arrombada duas vezes móveis foram roubados e alvejada por tiros. ''Como entraram para roubar, podiam fazer outra coisa'', afirma. Parte dos móveis foi recuperada e ela já mudou do bairro com ajuda de dois policiais civis.
O medo também faz parte da vida das crianças. ''Está muito difícil, eles têm medo de sair na rua e os maiores ficam me perguntando o por que de tudo isso'', conta a mulher, que está tão atônita quanto os filhos. O sustento da família também foi ameaçado. Ela e o marido tinham uma mercearia no bairro que estava sendo reformada. ''Não dá mais para levar isso'', diz.
''Deixei de ter liberdade, segurança, sempre morei no bairro e nunca acreditei passar por uma coisa dessas, acabaram com a minha vida'', conta a vendedora, que já decidiu sair da cidade. ''Um dia soltam ele e não sei o que pode acontecer'', desabafa.


