Vítimas da ressaca prometem resistir
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quarta-feira, 05 de junho de 2002
Denise Angelo<br>Equipe da Folha 
Curitiba - Termina amanhã o prazo para que 41 famílias que hoje moram na beira da praia, em Matinhos, deixem suas residências. A ordem de retirar as famílias do local foi dada pela Justiça Federal, que julgou ação movida pela União, que pedia reintegração de posse. A desocupação da área será feita pela Polícia Federal, com auxílio da Polícia Militar e da prefeitura.
Muitos moradores estão revoltados e prometem resistir à ordem de desocupação. É o caso do presidente da Associação dos Moradores da Ressaca, Luiz Carlos Ribas, que mora no local há 12 anos. Pago impostos para morar aqui e não tenho para onde ir, reclama. A Associação foi formada depois da ressaca ocorrida em maio do ano passado, que destruiu várias casas na mesma região.
De todas as pessoas que moravam no local na época da ressaca, 21 famílias de pescadores foram transferidos para outro local. Ganharam da prefeitura uma casa de 36 metros quadrados. 11 moradores conseguiram uma liminar garantindo o direito a permanência nas suas casas. Mas no mês passado a liminar foi cassada e a Justiça estabeleceu prazo para que os moradores deixem o local. Para as famílias que conseguiram a liminar, a prefeitura nega ajuda. Nós fizemos uma proposta para que eles desistissem da ação e então daríamos um terreno a eles. Mas eles insistiram..., diz o secretário municipal de Habitação e Assuntos Fundiários, Mário Pock.
Outro morador da região que não tem para onde ir é Carlos Alberto Pacheco dos Santos, 54 anos, que mora no local com sua mulher. Ele construiu uma lanchonete na frente de sua casa e uma imobiliária avaliou o imóvel em R$ 50 mil. Tudo o que eu tinha eu investi aqui. Como é que eu vou deixar tudo ser demolido, questiona. Pacheco tem comprovantes de recolhimento de Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) mas ainda assim a prefeitura o considera um invasor. Segundo o secretário, a área foi registrada ilegalmente em alguma gestão anterior. Ele poderá requerer tudo o que pagou que o município vai devolver, disse o secretário.
Ele também confessou que a área que está sendo oferecida aos moradores que não entraram com ação pedindo o direito de permanecer no local está embargada pelo Instituto Ambiental do Paraná. A área realmente está embargada, mas estamos lutando para liberar o local para que as famílias possam construir, disse.
Durante esta semana, a cena mais comum na região, que fica ao lado do antigo cemitério, era de caminhões estacionando para carregar madeira das casas que estavam sendo desmanchadas. Vou levar essa madeira para construir um barraquinho atrás da casa que me deram. Tenho nove filhos e não vou conseguir acomodar todos eles dentro daquela casinha de bonecas, diz Maria Gorete Machado. A casa tem 36 metros quadrados. Segundo a prefeitura a região criada para abrigar os desalojados chama-se Avenida dos Pescadores, mas os moradores do local o batizaram de quinto dos infernos.


