Vítima de derrame vai acionar Comurb
Silvana Leão
De Londrina
O Centro de Direitos Humanos de Londrina (CDH) vai entrar com uma ação de indenização por danos materiais e morais contra a Companhia de Urbanização de Londrina (Comurb), que não teria prestado socorro médico ao operador de máquinas João Pereira da Silva, de 51 anos. Em abril do ano passado ele sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC) dentro do Terminal Urbano quando voltava do trabalho, por volta das 23h30, e passou a noite ali sem atendimento.
Na manhã seguinte, uma pessoa conhecida da família passou pelo local e, vendo João da Silva caído, ainda desacordado, informou os familiares, que providenciaram seu transporte para o pronto-socorro da Santa Casa. Nós o encontramos inconsciente, com o braço esquerdo bastante inchado e com uma aparência ruim, conta a mulher do operador de máquinas, Antonia Aparecida da Silva.
João trabalhava em uma fábrica de embalagens plásticas no Jardim Santo Amaro, em Cambé (13 quilômetros a leste de Londrina), e saía às 23 horas do trabalho. Naquele dia ele perdeu o ônibus que o deixava em casa sempre por volta da meia-noite. Sentei no banco do terminal e fiquei esperando. Lembro que depois de um tempo uma pessoa pediu para eu trocar de lugar, porque iam lavar ali e eu podia me molhar, conta, com certa dificuldade para se expressar.
Ele detalha que quando se levantou, sentiu muita tontura. Silva não sabe direito como chegou até o outro banco, mas diz lembrar de algumas conversas perto de si, de pessoas sugerindo que ele estivesse bêbado. Falando pouco e demonstrando emoção ao falar de seu drama, o operador de máquinas diz que não conseguia se expressar e não enxergava o que estava acontecendo à sua volta. Não sei se dormi ou desmaiei, conta.
Segundo Antonia da Silva, o marido ficou vários meses em cadeira de rodas. Há pouco tempo, graças à fisioterapia, começou a caminhar com dificuldade. Antonia explica que demorou a tomar uma providência em relação ao caso porque o marido sempre fica muito nervoso em falar sobre o assunto, mas até hoje não se conforma por ninguém ter ajudado João. Todos nós ficamos revoltados. Ele estava caído no chão e ninguém fez nada.
Para Antonia, além do sofrimento que poderia ter sido poupado à família - que passou a noite nas ruas e terrenos baldios procurando por ele - o atendimento rápido e adequado poderia ter evitado maiores problemas. Hoje, João da Silva é aposentado por invalidez.
Para o advogado Carlos Roberto Scalassara, coordenador-geral do CDH, é inadmissível que um caso de omissão de socorro tenha acontecido dentro de um espaço de responsabilidade do poder público e por onde transitam tantas pessoas diariamente. O ser humano deve ser o centro de nossas preocupações, e mesmo aqueles que se excedem na bebida devem receber atenção de nossa parte.
De acordo com Scalassara, se o operador de máquinas vir a ganhar a ação, ele terá direito a receber mensalmente um valor equivalente ao que estaria ganhando se estivesse trabalhando, além da indenização referente às despesas e prejuízos que passou a ter após o acidente e aos danos morais causados pela situação. Quem vai determinar os valores, porém, será o juiz responsável pelo caso. Nós nunca vamos conseguir reparar as perdas, mas talvez amenizar o sofrimento.





