Imagem ilustrativa da imagem Vítima de abuso faz blitz para alertar mulheres sobre violência sexual
| Foto: Gustavo Carneiro - Grupo Folha

Vítima de abuso sexual, a vendedora Disireé Marcelino da Silva Araújo transformou uma experiência traumática em uma forma de ajudar outras mulheres a enfrentarem e se defenderem de situações de violência. Em outubro de 2017, o caso dela ganhou notoriedade em Londrina depois da prisão do homem que cometeu uma tentativa de estupro contra ela dentro de um ônibus do transporte coletivo. O abusador foi detido ao chegar ao Terminal Urbano de Londrina porque antes do veículo chegar ao destino formou-se uma rede de proteção e colaboração entre os passageiros e o motorista.

A partir de setembro de 2018, com a aprovação da lei 13.718, atos de importunação sexual passaram a ser considerados crimes passíveis de detenção e o empenho de Araújo é para que o conteúdo dessa lei chegue ao maior número de mulheres possível e sirva como respaldo e incentivo para que casos como o dela sejam denunciados à polícia.

Nesta sexta-feira (7), a vendedora participa da blitz “Não se intimide, denuncie”, que vai acontecer no Terminal Urbano, das 11 às 13h. A ação tem como objetivo informar as mulheres sobre seus direitos e encorajá-las a não se calarem diante dos abusos. “Eu me sinto muito mal por essas mulheres que passam por essa situação. É muito sério e pode acontecer com qualquer uma. Não acontece só com quem anda de ônibus. Acontece com quem anda de carro, a pé. Entristece a sensação de impotência.”

SERVIÇOS DISPONÍVEIS

Araújo também quer que as mulheres conheçam os serviços disponíveis para apoiar as mulheres vítimas de abusos. “Eu não sabia que na secretaria municipal da Mulher existe apoio psicológico e jurídico”, comentou. A blitz faz parte do programa Juntas Somos Mais, da secretaria da Mulher, e terá a participação de cerca de 50 pessoas ligadas a órgãos públicos e entidades privadas.

“Temos ações preventivas e protetivas. Nas preventivas, desenvolvemos algumas ações para casos de violência. Nessa blitz iremos levar informações às mulheres porque entendemos que a informação é o primeiro passo para que as pessoas busquem seus direitos e conheçam os tipos de violência”, disse a secretária da Mulher, Nádia Oliveira de Moura.

“As mulheres não podem ter vergonha. Ela tem que denunciar até para não deixar que aconteça o mesmo com uma próxima”, destacou a vendedora. “A lei (13.718/18) abrange várias situações de agressão que às vezes fica sem denúncia porque a vítima não tem conhecimento. O que mais a gente quer bater na tecla é a denúncia a qualquer ato de importunação sexual e, para isso, as pessoas têm que ser esclarecidas”, ressaltou a vendedora, que defende maior rigor na legislação. “Nossas leis ainda não são rígidas o suficiente”, avaliou.

Segundo a secretária da Mulher, após o encerramento da blitz desta sexta-feira, os participantes seguirão com a panfletagem pelas ruas do entorno do Terminal Urbano até chegar ao calçadão. Como extensão desta ação, adianta Silva, a intenção é realizar palestras em escolas e empresas para que o alerta e as orientações sobre a prática de abuso cheguem a um grande número de pessoas. “Queremos incentivar as denúncias”, disse Araújo.

'Passei bastante tempo

sem andar de ônibus'

O homem que cometeu o abuso contra a vendedora Disireé Marcelino da Silva Araújo dentro do ônibus ficou preso por seis meses, até abril de 2018, quando ele foi julgado e condenado a fazer trabalhos comunitários. Um ano e oito meses depois do abuso, mesmo sabendo que seu agressor está em liberdade, a vendedora considera o caso superado.

“Nos primeiros dias eu fiquei meio abalada. Cheguei a pensar que eu era culpada, que era a roupa que eu estava usando, um vestido uns quatro dedos acima dos joelhos. Mas depois eu concluí que eu não tinha provocado a situação. Mas o que mais me tranquilizou foi saber que ele estava preso. Se ele tivesse sido solto logo depois, teria ficado mais abalada”, disse a vendedora. “Passei bastante tempo sem andar de ônibus, mas já voltei a utilizar o serviço. Fico sempre com receio quando alguém fica muito perto. Também uso o serviço de motoristas de aplicativos.”

A vendedora diz que gostaria que as empresas de transporte coletivo fizessem adesivos para serem fixados no interior dos ônibus informando as mulheres sobre a lei de importunação sexual para que conheçam seus direitos e saibam a quem recorrer em caso de necessidade. “É um trabalho muito importante que precisa ser desenvolvido e a sociedade precisa se abrir para isso”, afirmou. “Resolvi transformar o que vivi em uma coisa boa porque senão você não vive, fica amargurada e presa numa situação. Decidi ajudar outras mulheres a não passarem pelo mesmo que eu e, se passarem, que tenham coragem para enfrentar e denunciar.”

A TCGL (Transportes Coletivos Grande Londrina), empresa que opera o maior número de linhas de transporte coletivo no município, informou por meio de nota que em qualquer situação de assédio a mulheres que ocorra dentro dos ônibus, a orientação aos motoristas é que se dirijam à delegacia mais próxima e entreguem o caso à polícia ou, se estiver mais próximo de um terminal de ônibus, que acione a segurança para gerenciar a situação.

"Usam a falta de espaço como desculpa para o abuso"

Poucos minutos de conversa com mulheres que aguardam os ônibus no Terminal Urbano em Londrina bastam para ouvir relatos tristes e ao mesmo tempo assustadores. Dentro dos ônibus ou em qualquer outro local público, elas são vítimas de vários níveis de abuso. “Comigo já aconteceu de homem ficar se esfregando, aproveitando que o ônibus estava cheio. E não foi uma vez só. É nojento o que eles fazem. Usam a falta de espaço como desculpa para o abuso. A gente tem que ficar sempre atenta. E encostou em mim, eu falo alto, faço um escândalo, não fico quieta de jeito nenhum”, disse uma usuária de 46 anos. “Eu acho um absurdo. A gente faz muito mais coisas que os homens. Cuida da casa, dos filhos, trabalha fora, lava, passa, cozinha. As mulheres têm muito mais utilidade no mundo do que eles e ainda têm que aguentar essas coisas.”

Uma estudante de 19 anos também já passou por um constrangimento ao usar o transporte coletivo. “Uma vez eu estava no ônibus e um cara começou a se tocar. Achei aquilo desnecessário e saí de perto. É uma coisa que choca”, contou. Ela diz o risco de abuso é sempre uma preocupação para ela, especialmente nos horários de maior movimento, quando os ônibus circulam lotados. “Quando entro em um ônibus, evito ficar perto de onde tem muito homem junto e procuro sempre ficar próxima de outras mulheres, acho mais seguro.”

“Toda mulher tem medo de abuso. É muito complicado e não é só no ônibus. Em qualquer meio de transporte existe o risco. Nos carros de aplicativo eu também tenho muito medo. A mulher, no geral, sempre sofre algum tipo de abuso de homem. Comigo não aconteceu, mas conheço outras mulheres que já passaram por essa situação. Se acontecer, faço um escarcéu, ponho a boca no mundo. Aviso o motorista e chamo a polícia. Não me intimido com a situação porque quem está errado é o homem que faz isso”, disse outra estudante de 22 anos.

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