Vista Bela é a realização do sonho da casa própria
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segunda-feira, 02 de janeiro de 2012
Patrícia Alves/ Redação FolhaWeb 
Há pouco mais de seis meses da entrega das primeiras moradias, a "Cidade de Deus" londrinense, como foi apelidado o Residencial Vista Bela, na Zona Norte de Londrina, construído com recursos do programa federal de habitação "Minha Casa, Minha Vida", já é considerado um dos bairros mais pobres da cidade.
Um empreendimento com área de 605 mil metros quadrados, 2.056 casas construídas, onde vive - com pouca infraestrutura básica - uma população com mais de oito mil pessoas em vulnerabilidade social. Lá, todas as famílias têm renda mensal abaixo de três salários mínimos e a maioria é beneficiária de algum tipo de programa de combate à pobreza extrema dos governos Federal e Municipal.
Esses moradores são dependentes de Unidades Básicas de Saúde (UBS), creches, escolas de ensino fundamental e médio de bairros próximos, os quais não possuem estrutura para atender a demanda. Essa é a realidade do novo bolsão de pobreza do município, que agrega ex-moradores de fundos de vale e áreas de preservação permanente de vários bairros de Londrina.
Para agravar o quadro, em fevereiro deste ano, a Companhia de Habitação (Cohab) deve entregar o último lote com 600 residências, o que totalizará mais de 10 mil pessoas no residencial, o equivalente à população do município de Alvorada do Sul, na Região Metropolitana de Londrina. Enquanto isso, as obras do primeiro equipamento urbano básico - um centro de convivência - poderão ser finalizadas somente no segundo semestre de 2012.
O presidente da Cohab de Londrina, João Verçosa, garante que já estava prevista a construção da infraestrutura básica quando foi projetado o residencial, em 2009, mas o andamento das obras atrasaram por procedimentos governamentais. "No início do projeto foi exigida a construção de postos de saúde, escolas, creches em um raio de dois mil metros do residencial. Nós corremos atrás para viabilizar em tempo viável, mas dependemos de verbas públicas e outros recursos federais e esses processos exigem tempo", argumenta o presidente.
De acordo com Verçosa, para 2012 alguns equipamentos públicos já estão em fase de projeto e outros de construção. "Apresentamos o projeto de construção de um centro de convivência que deve ser utilizado como creche e para atendimentos do Cras (Centro de Referência em Assistência Social), que teve início no primeiro dia de dezembro e tem um prazo de oito meses para ser completado.
No Jardim Padovani, está prevista a construção de uma Unidade Básica de Saúde (UBS) e outras duas centralizações do Cras. Para o Jardim Morada de Portugal está projetado um complexo educacional, onde haverá uma creche, uma escola estadual e outra municipal. Todos estes empreendimentos na região do Residencial Vista Bela serão voltados para atender a esta comunidade, também", relata Verçosa. "No Vista Bela, está em construção um barracão de reciclagem, próximo ao Jardim Horizonte 2, para as famílias que trabalham com estes materiais", completa.
O presidente da Cohab analisa que para um empreendimento de seis meses, há mais pontos positivos que negativos. "São 2.056 famílias retiradas de áreas de risco. A grande maioria não queria sair dos guetos, as crianças estavam servindo de 'aviãozinho' para o tráfico de drogas. Fizemos um trabalho de convencimento e conseguimos atender mais de 80% dessas familias, este trabalho de convencê-los a se retirar dos fundos de vale já é referência para outros empreendimentos no País."
Verçosa conta que no passado, foram entregues títulos frios de propriedade dos barracos em fundo de vale sem valor ou legalidade para estas famílias. "Hoje, esses cidadãos têm endereço. As pessoas vivem em harmonia e seguiram para as novas residências espontaneamente. No Vista Bela, respeitamos os vínculos de vizinhança dos bairros de origem para evitarmos quaisquer problemas."
Ele acredita que a alcunha de "Cidade de Deus" é ofensiva e preconceituosa. "Temos que ter respeito por estes moradores. As pessoas que lá vivem não gostam de ter sua comunidade chamada dessa forma", salienta. "Sabemos que o projeto não é perfeito, mas planejamos em tempo viável construir tudo o que é necessário para uma vida com dignidade."
Segundo a secretária municipal de Assistência Social, Jacqueline Micali, o novo centro de convivência deve abrigar as atividades de contraturno escolar para as crianças, as quais serão desenvolvidas pela Secretaria Municipal de Assistência Social. Conforme ela, as ações estão focadas nas necessidades dos moradores do Vista Bela. "Este ano fizemos a realocação de três profissionais de assistência social para trabalhar no Cras Norte A, o primeiro a ser municipalizado devido a grande demanda da região", recorda.
"O combate à pobreza tem vários campos e a assistência social é apenas um deles. Nós estamos fazendo muitas ações não só no Vista Bela, mas em outros bolsões de pobreza para reduzir a desigualdade", completa Jacqueline.
Outra medida paliativa foi anunciada no início do mês de dezembro. A Prefeitura de Londrina garantiu o encaminhamento para a Câmara Municipal de um projeto de lei que solicita a autorização para uso de transporte escolar dentro do perímetro urbano para cerca de 400 crianças que moram no Residencial Vista Bela que não terão como ir para as aulas do ensino fundamental em 2012.
Após a inauguração do residencial, a secretária municipal de Educação, Karin Sabec, calculou que a demanda educacional na Região Norte aumentou, ocasionando um problema no gerenciamento das salas. Ainda de acordo com a secretária, no campo da educação infantil, a Prefeitura anunciou a construção do primeiro Centro de Educação Infantil (CEI) do bairro em cerca de oito meses, com finalização estimada somente para o ano letivo de 2013.
33 mil em bolsões de pobreza
Dados da Secretaria Municipal de Assistência Social projetam que quase 33 mil pessoas vivem em estado de vulnerabilidade social em Londrina. Esses valores estão relacionados a famílias com baixa renda, inscritas no Cadastro Único (CadUni) para recebimento de benefícios federais e municipais de combate à pobreza. Deste total, 12.558 pessoas recebem até três salários mínimos, em um índice de R$ 140 per/capita, e vivem em ''bolsões de pobreza'' nas regiões Norte, Leste e Oeste.
Segundo a secretária Jacqueline Micali, a Região Leste sofre com a maior concentração de pessoas em vulnerabilidade social no município. "Há famílias em que somente os benefícios federais não garantem a vivência digna. São pessoas que convivem com membros da família sem qualificação profissional, que têm problemas com drogas, alcoolismo, e não podem garantir a educação de suas crianças", analisa.
Conforme a secretária, para complementar a renda dessas famílias, o Município criou, em 2011, dois benefícios de combate a pobreza extrema: o auxílio natalidade, que atende 70 famílias, em média, e o Bolsa Auxílio Adolescente Projovem, com 200 beneficiários nas zonas urbana e rural.


