Ao longe, a vista surpreende. São milhares de casas e apartamentos agrupados em um só local, no alto da Zona Norte de Londrina. Em junho do ano passado, o sonho de muitas famílias começou a ganhar forma em pouco mais de 40 metros quadrados. Andar pelas ruas do Residencial Vista Bela é encontrar em cada janela uma história. Os relatos de famílias que ainda estão se adaptando são inúmeros e singulares. Muitos se arriscam a dizer que a vida tem melhorado. Porém, há aqueles que mesmo com uma casa de alvenaria e um endereço fixo, não esquecem a vida ''deixada'' no fundo de vale e até sentem saudade, revelando dificuldade para se encaixar ao novo estilo de moradia.
Um exemplo é Cosma Maria da Silva, 52 anos, que há um ano deixou um barraco feito de tábuas no Jardim Marabá (Zona Leste) para viver no Vista Bela com o marido, duas filhas e três netas. ''Eu gostava de onde morava porque eu podia criar meus bichinhos e vivia tranquila. Se pudesse, voltava para lá'', supreende.
A renda familiar é quase toda proveniente do Bolsa Família. Por enquanto, Cosma e o marido estão desempregados e por isso as contas fixas também entram na lista de dificuldades. ''Todo mês tenho conta de água, luz e a prestação da casa. Vou ter que começar a vender umas galinhas'', contabiliza ela, que no quintal de casa já providenciou um galinheiro e uma horta, além de criar cachorros e até uma pata.
Pesquisa
O aumento de gastos e as dificuldades de adaptação são recorrentes entre as moradoras do Vista Bela. O fato foi constatado em uma pesquisa realizada em janeiro deste ano, como parte do projeto de extensão do Departamento de Sociologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Com o objetivo de levantar dados para a compor ações de combate à violência contra a mulher, foram entrevistadas 60 moradoras do residencial, entre outras centenas de londrinenses de várias regiões da cidade.
''Muitas famílias do Vista Bela tinham acesso à água encanada e à energia elétrica através de ligações irregulares e hoje estão pagando por esses e outros serviços. Além disso, muitas delas não estão conseguindo se adaptar a determinadas regras, como a proibição de praticar comércio irformal'', avalia a doutora em Sociologia Silvana Mariano, coordenadora da pesquisa.
A distância do Centro da cidade e a falta de serviços básicos como escola, creche e posto de saúde também estão entre as principais queixas. De acordo com a pesquisa da UEL, das 60 entrevistadas, 32 têm filhos em idade de creche e 23 delas estão sem trabalho. ''A grande maioria trabalhava como diarista. Elas alegam que não têm com quem deixar as crianças e que devido aos custos com transporte tiveram que abrir mão de seus trabalhos'', afirma Silvana.
Ela ressalta que o tempo de adaptação à nova realidade social depende do histórico de cada pessoa. ''Muita gente que vivia em assentamentos não está acostumada a certas regras sociais. O direito à moradia é fundamental, mas precisa vir acompanhado de infraestrutura, senão a pessoa fica com a sensação de que tem teto, mas lhe falta todo o resto'', destaca. Ela diz que esse problema é agravado pela construção de grandes bairros em áreas distantes da região central, limitando o acesso a uma série de serviços culturais, econômicos e políticos.
As primeiras 178 unidades do Vista Bela foram entregues no dia 28 de junho do ano passado. Atualmente, são 2.712 moradias, sendo 90 prédios com 1.440 apartamentos e 1.272 casas. Os projetos segue um padrão com dois quartos, sala conjugada com cozinha e banheiro. Cada unidade custa em torno de R$ 45 mil e o valor das prestações gira em torno de R$ 50 mensais.

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