A pesquisadora Marilda Agudo Mendonça Siqueira classifica o vírus influenza como "desafiador", de transmissibilidade muito rápida e incontrolável. O desafio é pela capacidade que ele tem de mudar a cada ano, o que pode influenciar na composição da vacina e até provocar uma pandemia, como em 2009.

"Quando um vírus entra em uma célula, ele sai em cem mil ou um milhão de partículas e o influenza faz isso rapidamente", explica. O vírus Influenza tem 4 tipos (A, B, C e D). O D foi recém identificado em porcos, mas não em humanos. O C circula pouco e não causa infecção grave. "Já o A (H1N1 e H3N2) e o B são preocupantes", cita.

Quanto os rumores nas redes sociais sobre a circulação do vírus mortal H2N3, a pesquisadora ressalta que ele não existe. "No sudeste asiático alguns vírus com potencial pandêmico (H7N9 e H5N1) e alta taxa de letalidade (65%) estão circulando, mas ainda não foram transmitidos de homem para homem. Estamos com um estudo piloto de produção para o influenza H7N9, coordenado pelo Instituto Butantã a pedidos da OMS, mas para verificar a logística e funcionamento apenas", revela.

O laboratório da Fiocruz também estuda amostras de pacientes que têm gripe ou que estão hospitalizados com uma infecção como SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave) para avaliar se são sensíveis ou resistentes ao antiviral (tamiflu) disponibilizado no Brasil e também, a similaridade dos vírus em circulação com a cepa da vacina.

Os pesquisadores estudam o genoma do vírus e encaminha as análises para o MS, OMS e OPAS. "A OMS reúne os laboratórios internacionais, analisam todos os dados e em setembro definem as cepas que vão compor a vacina para o hemisfério sul. Não podemos garantir, mas a ideia é que a vacina do próximo ano seja a mais assertiva possível", diz.

Ainda de acordo com a pesquisadora, pode acontecer de diferentes cepas circularem em determinadas regiões, mas a vacina é produzida com aquelas que circulam na maioria dos países. "Não temos uma vacina específica para o Brasil. É a mesma em todos os países, pensando justamente na circulação da população", aponta.

Siqueira nasceu no interior de São Paulo e mudou-se para o Paraná ainda criança. Formou-se em Farmácia e Bioquímica pela UEL (Universidade Estadual de Londrina) e ingressou na Fiocruz como aluna de mestrado em 1979. Dois anos depois, foi contratada pela experiência em Microbiologia, com ênfase em Virologia.

Mesmo com décadas de trabalho dedicado à erradicação de doenças imunopreveníveis, Siqueira se emociona em comentar a redução dos números de casos de sarampo no Brasil. Nos anos 80, o sarampo matava 2,5 milhões de pessoas em todo o mundo, a cada ano. Era a segunda causa de mortalidade infantil. Em 2015, após a campanha de vacinação em massa em um trabalho conjunto do MS e o laboratório da Fiocruz chefiado por Siqueira, esse número caiu para 104 mil.

Para se dizer totalmente realizada profissionalmente, Siqueira diz que sonha em ver a implantação da vacina para VSR e a erradicação do sarampo em todo o mundo. (M.O.)

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