No balcão do Bar Lusitano, no Distrito de Irerê, Agustinho, de 80 anos, e Adélia Gomes, 68, dividem as atividades. Ao lado de uma balança antiga, que hoje já não é mais utilizada, Agustinho mostra como funciona a máquina de cortar frios, comprada há cinco décadas. ''Aqui vinha muito peão para lanchar e, com ela, eu fatiava rapidinho'', explica o português, vindo de Leiria em 1951.
Os tios de Agustinho vieram para o Paraná devido à fama das plantações de café e, com o tempo, montaram uma serraria em Irerê e enriqueceram. ''Como os negócios iam bem, eles me chamaram e acabei vindo para trabalhar na agricultura. Quando conheci esta terra vermelha, não quis mais voltar.''
Na mesma época em que Agustinho embarcava para o Brasil, Adélia deixava Portugal acompanhada da família para trabalhar nas lavouras de café, em Irerê. Já casados, Agustinho comprou o bar de uma família de nordestinos, em 1953 e, desde então, o casal sobrevive das vendas de bebidas, doces, salgadinhos e miudezas.
Apoiada no antigo balcão, Adélia lembra que sofreu muito com a poeira e o barro arrastado pelos clientes. ''Naquele tempo não tinha asfalto e o chão ficava cheio de terra. Eu me cansava de tanto limpar'', conta. As condições das estradas também eram precárias. Os fornecedores de mercadorias passavam dias viajando e costumavam se hospedar nos locais por onde passavam. Para atender os viajantes, principalmente os japoneses que vinham de Presidente Prudente (SP) para vender bebidas ao bar, Agustinho comprou 20 camas e passou a servir refeições no pequeno estabelecimento. ''Virou hospedaria, bar, mercearia. Tudo junto'', define.
Saudoso, ele comenta que o trabalho era duro e, sem energia elétrica, a casa era iluminada por lampiões. A geladeira funcionava com querosene. Apesar de tudo, afirma que eram bons tempos, pois havia muitas festas e o bar era uma referência. ''Nas sextas-feiras, o movimento dobrava pois era dia de bacalhoada. Com o dinheiro, comprei três sítios e cheguei a ter mais de 100 clientes na caderneta'', afirma.
Questionado sobre um produto que é vendido até hoje, ele logo responde: ''a oncinha. Todo mundo toda uma pinguinha'', brinca Agustinho, que só perde a descontração quando o assunto é a venda do lugar. ''Nunca pensei nisso. Me acostumei aqui e minhas filhas podem dar continuidade. Enquanto eu tiver saúde, vou trabalhar neste balcão'', enfatiza. (M.O.)

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