Na semana passada, uma jovem em Londrina sofreu abuso sexual dentro de casa. O agressor era o padrasto, com quem convivia há muitos anos. Amigas da vítima confirmam que ela sofria assédio constante e que nunca denunciou o fato à polícia. "Ela disse que ele tentou agarrá-la por diversas vezes, mas que sempre conseguia escapar; e chegou a comentar o fato com a mãe, mas ela não acreditava", revelou uma amiga, afirmando que a jovem já havia fugido de casa em outras ocasiões, mas que em pouco tempo acabava retornando.
O caso chocou a sociedade e trouxe à tona o assunto que ainda é mantido sob silêncio. A verdade é que crimes como este, cometidos por pessoas do convívio, na maioria das vezes o pai ou o padrasto, são as ocorrências mais frequentes quando há denúncia de violência contra crianças e adolescentes.
Porém, os casos notificados ainda são irrisórios devido principalmente à dificuldade das vítimas para lidar com o fato. A reportagem procurou fazer contato com algumas vítimas para que comentassem por que muitas vezes é difícil fazer a denúncia da agressão. A fragilidade e o trauma das vítimas são tão fortes que ninguém quis contar sua história.

Autoestima
"Grande parte dos agressores está dentro de casa. Muitas vezes é o próprio pai, padrasto, tio, avô ou pessoas muito próximas e, quando falamos em crianças e adolescentes, temos que lembrar que eles são vulneráveis e estão em desenvolvimento. Eles não conseguem se proteger e a própria família não consegue dar conta da situação, pois a mãe em algumas situações é conivente e tem suas dificuldades também", comenta coordenador da Comissão Interinstitucional de Enfrentamento às Violências Contra Crianças e Adolescentes de Londrina: Semear, o hebiatra Renato Moriya.
Ele salienta que o pedófilo procura por vítimas com um certo perfil de comportamento. "Geralmente, busca aquelas que ele sabe que não irá denunciar, até por uma questão de ameaça; as crianças mais tímidas, que não falam e até aquelas que têm autoestima baixa", completa.
Ainda de acordo com Moriya, de cada quatro crianças no mundo, uma é abusada. Ao dimensionar a estimativa para Londrina, o hebeatra supõe que de cada 10 casos de abuso contra crianças e adolescentes, apenas um é notificado.
Dados dos centros de referência especializados de Assistência Social (Creas 3 e 4) de Londrina apontam que até janeiro deste ano 501 crianças até 12 anos estavam em atendimento na unidade, vítimas de abuso sexual. Dentre eles, 253 são meninos e 248, meninas. Na faixa etária entre 13 e 17 anos são 270 vítimas, sendo 123 rapazes e 147 moças.

Denúncias
Lianne Namie Hachiya, coordenadora do Programa Municipal Rosa Viva, que atende mulheres acima de 12 anos, vítimas de violência sexual, reforça que a falta de informação, o medo da exposição e até a falta de estrutura física ou psicológica são fatores que também colaboram para que os números de denúncias sejam baixos.
No ano passado, o Rosa Viva atendeu 52 casos. As vítimas são encaminhadas para o programa, que funciona na Maternidade Municipal Lucilla Ballalai, para receber tratamento medicamentoso. Segundo ela, até 2011, denunciar era mais difícil para a vítima porque ela tinha que ir na delegacia. Com a Rede de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher, elas têm mais conhecimento sobre os direitos e proteção e estão se encorajando a registrar o Boletim de Ocorrência.
Para a diretora do Centro de Atendimento à Mulher (CAM), Lucimar Rodrigues da Silva, outro ponto que interfere na questão da denúncia "é o fato de que muitas vítimas se sentem culpadas pelo crime, por achar que 'incitaram' a situação, por exemplo, por usarem roupas curtas. Isso sem contar que muitas vítimas entram em depressão", aponta . Ela ressalta o quanto é importante dar continuidade ao tratamento psicológico. "O tratamento leva em média seis meses e, por isso, as mulheres encaram isso de forma negativa, porque o que elas querem é esquecer o que aconteceu", diz.
No ano passado, a Semear lançou uma cartilha para orientação e esclarecimento de todos os profissionais que lidam com crianças e adolescentes no sentido de combater todo tipo de violência no município. "O objetivo é articular todos os órgãos e profissionais para que consigamos efetivamente proteger a criança e adolescente contra esses agravos que estão acontecendo e são frequentes", explica Moriya, ao reforçar a necessidade de capacitação. "Todos devem estar preparados para perceber pequenas nuances que a criança ou adolescente pode apresentar, porque ela mesma não vai dizer que é vítima." (Colaborou Érika Gonçalves)

Serviço – Denúncias de abuso podem ser feitas pelo fone 100 (Dique denúncia nacional), 125 (Conselho Tutelar de Londrina) ou 3378-0563

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