Violência rouba 9 mil anos de londrinenses
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segunda-feira, 26 de junho de 2006
Vanessa Navarro<br>Reportagem Local 
Com um ano de vida a menos, um indivíduo pode perder a chance de encontrar um amor, de ouvir o filho dizer a primeira palavra, de deixar sua contribuição para a sociedade. Quando um município é privado de 9 mil anos de vida dos seus habitantes em apenas um ano, perde mão-de-obra, consumidores, cabeças pensantes, potenciais talentos. É o caso de Londrina.
Mais trágico é saber que o número acima se refere somente a mortes provocadas por homicídios, acidentes e suicídios, as chamadas ''causas externas''. Aquelas que, ao contrário dos vírus, bactérias, mistérios do corpo humano e revoltas da natureza, estão sob total controle do homem. Os dados são da Gerência de Informações em Saúde (GIS) de Londrina, que recebe todos os registros de óbitos ocorridos na cidade.
Um dos indicadores utilizados pelo órgão é o dos Anos Potenciais de Vida Perdidos (APVP), que leva em consideração o tempo que a vítima ainda poderia viver, limitado à média de 70 anos. As estatísticas apontam que, em 2005, os londrinenses perderam 9.036 anos potenciais em razão de causas externas. Destes, 5.645 foram ''roubados'' por agressões (incluindo homicídios, latrocínios e lesões seguidas de morte), o equivalente a 62% do total. Outros 2.941 anos (32%) se perderam em decorrência de acidentes diversos e 450 (5%) devido a suicídios.
Em comparação com 2004, houve diminuição do número de APVP relativos a essas três causas externas, 19% a menos no total. No entanto, segundo a gerente de Informações em Saúde, Maria Luiza Hiromi Iwakura, do ponto de vista epidemiológico a diferença não é significativa porque ainda não expressa uma tendência de queda.
A última grande mudança no perfil das mortes em Londrina ocorreu em 2001, quando pela primeira vez os homicídios passaram à frente dos acidentes de trânsito no ranking de causas externas de óbitos, situação que permanece até hoje. O fato expressa a escalada da violência, em grande parte movida pelo tráfico de drogas, que os londrinenses têm acompanhado diariamente.
Nos últimos cinco anos, os homicídios têm sido os principais responsáveis pela perda de anos potenciais de vida dos nossos habitantes. De 2000 até o ano passado, essa perda mais que dobrou. ''O APVP é um indicador de grande impacto porque mostra o quanto as mortes causadas por violências e acidentes são prematuras'', avalia Maria Luiza. O assassinato massivo de jovens e adolescentes, envolvidos com o crime cada vez mais cedo, reflete diretamente nas estatísticas de sobrevida.
A despeito da idéia popular de que ''bandidos não fazem falta'', a morte prematura de jovens tem impacto na economia e, consequentemente, reflete em toda a sociedade. ''A violência sai cara para os governos. Quanto custa a morte de um jovem de 16, 17 anos? O País perde com a morte de um jovem que poderia ser trabalhador. Nós estamos perdendo o melhor que é a nossa juventude'', alerta o professor de Economia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Miguel Arturo, para quem a violência é um dos frutos da falta de políticas globais do Poder Público.


