Dimitri do Valle
De Curitiba
Quatro policiais militares ficaram feridos na noite de ontem durante a desocupação de um terreno localizado ao lado do Parque da Barreirinha, em Curitiba. Cerca de 150 famílias de sem-teto estavam na área desde sexta-feira. Depois de duas horas de negociação, os policiais formaram um barreira e começaram a empurrar os invasores para fora do terreno. Os sem-teto responderam com pedras. Dois oficiais de Justiça e 73 homens da Polícia Militar tentavam cumprir o mandado de reintegração de posse ganho pelo Lar Bom Pastor, que seria o proprietário da área. O clima de tensão e impasse marcou todo o tempo da negociação.
Invasores e policiais não chegavam a um acordo. As famílias diziam que só iriam embora se os oficiais de Justiça se comprometessem em garantir um lugar seguro para que eles pudessem deixar os seus pertences. Os oficiais alegaram apenas que fariam uma relação com os objetos de todos e iriam encaminhá-los a um ‘‘barracão’’. O advogado Valdemar Reinert, que representa os sem-teto, entrou com um agravo de instrumento no Tribunal de Alçada para tentar derrubar o mandado de reintegração de posse. Reinert alegou que o verdadeiro proprietário da área não era o Lar Bom Pastor, mas a empresa farmacêutica Santa Guilhermina. O mandado de reintegração de posse, expedido pelo juiz Fernando Antônio dos Prazeres, do Plantão Judiciário Cível, começou a ser cumprido por volta das 17h30.
Os policiais estavam acompanhados de 15 homens à paisana que foram recrutados pelos proprietários do Lar Bom Pastor para destruir os barracos construídos pelos ocupantes. Usando pedaços de pau e as próprias mãos, os operários quebraram telhas, derrubaram construções e rasgaram lonas. A atitude revoltou os sem-teto que passaram a chamar os homens de ‘‘pistoleiros’’ e ‘‘capangas’’. O coordenador da invasão, Miguel Arly dos Santos, 42 anos, disse que a intenção era ficar no terreno, de 1,5 alqueire, mesmo tendo que passar a noite sem qualquer abrigo contra o frio. ‘‘Todo mundo está disposto a ficar desabrigado na área. Queremos apenas um teto para morar. Não queremos guerra com a polícia’’, afirmou Miguel.
Em busca de um teto - A aposentada Dorvalina Quadros, 63 anos, perdeu tudo na enchente que atingiu há duas semanas o município de Rio Negrinho (SC), onde morava. A convite de um filho, ela participou da ocupação do terreno em Curitiba. ‘‘Cheguei aqui com a roupa do corpo’’, disse. A invasão também teve a participação de pessoas do próprio bairro Barreirinha, como foi o caso da dona de casa Juraci Jesus de Mello, 29 anos. ‘‘Meu marido e eu estamos desempregados e não deu mais para pagar o aluguel. A gente ouviu que tinha invasão e viemos para conseguir um pedaço de terra’’, disse ela, sem revelar quem a convidou a particpar da ocupação.
Separada do marido e criando sozinha os cinco filhos, a dona de casa Cristina Oliveira, 31 anos, natural de Campo Mourão, disse que não poderia viver mais ‘‘de favor’’ na casa de conhecidos. ‘‘Estou há seis meses em Curitiba e só queria um pedacinho de terreno para criar os meus filhos’’, justificou. Cristina não entendia porque outras invasões ‘‘deram certo’’ e aquela não poderia se concretizar. ‘‘Muita gente invadiu e pode realizar o sonho de ter onde morar’’, lamentou.As 150 famílias que haviam invadido um terreno no bairro Barreirinha foram retiradas à força. Quatro policiais ficaram feridos
Mauro FrassonOrdemOs sem-teto tiveram que desmontar os barracos que construíram depois que a PM chegou ao local acompanhando oficiais de Justiça

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