Mães e pais são os principais agentes de agressão contra crianças em Londrina. Um estudo realizado entre 2002 e 2006 pela enfermeira Christine Baccarat de Godoy Martins, que trabalhou por 20 anos no setor de pediatria do Hospital Universitário (HU), apontou que pais preferem usar a força física, enquanto mães negligenciam e até abandonam seus filhos. Ela pesquisou arquivos dos conselhos tutelares e também prontuários médicos.
A tese concluiu que houve um aumento de 60% no número de notificações da violência infantil no município: de 607 casos em 2002 para 1.103 em 2006. Meninas de dois a quatro anos são as que mais sofrem agressão. Já entre os meninos, a idade de risco vai dos quatro aos seis anos.
A maioria das crianças agredidas mora com os pais, que têm renda familiar de um a dois salários mínimos. Entre as situações de risco, o alcoolismo, predominantemente entre os homens, e a crise conjugal, que preocupa as mulheres, contribuem para as agressões. ''Quando as crianças não são filhos naturais ou quando a mãe é muito jovem a situação também se torna de risco'', citou Christine, ressaltando que homens agressores têm, predominantemente, idade entre 30 e 34 anos, enquanto as mulheres têm de 20 a 24 anos.
Christine apurou ainda que dificilmente a violência envolve apenas uma agressão. Em mais da metade dos casos estudados nos cinco anos, as vítimas sofreram mais de um ato violento: 67,9% em 2002 e 72,5% em 2006.
Violência física lidera a lista de agressões, seguida por negligência e abandono e pela violência sexual, praticada principalmente por padrastos, vizinhos, tios, primos e namorados das mães. Pais costumam usar o próprio corpo para bater, com tapas e socos, enquanto as mães e madrastas utilizam instrumentos como chinelos e cintas.
Abandono
Segundo Christine, 90% dos casos de violência terminam em múltiplas lesões corporais, pela condição indefesa da criança, e quase a totalidade das vítimas apresentam sequelas, principalmente físicas. Christine explicou que a violência psicológica costuma se manifestar na fase adulta e até contribui para a perpetuação do ato violento. ''Por isso a vítima deve passar por um tratamento adequado que interrompa o ciclo repetitivo de violência.''
A compilação de dados da tese mostrou que no geral houve 172 reincidências ou 10,6% da população estudada. Conforme a enfermeira, a reincidência envolveu principalmente o sexo feminino: 66,3% dos casos.
A maioria dos denunciantes é integrante da própria família, sendo a mãe a figura que mais delata. Em segundo lugar estão os profissionais de saúde, e a pesquisa ressaltou um aumento no número de denúncias feitas por vizinhos e pela comunidade em geral. Ela assinalou ainda que a proporção de crianças que formalizam denúncias é mínima. ''Os pequenos não entendem, são os adolescentes que têm mais coragem.''
Conforme a enfermeira, a proporção de denúncias ainda é baixa e por isso é necessário um trabalho de conscientização da sociedade. ''É comum a denúncia acontecer um, dois anos depois do primeiro ato violento.''
Christine estudou ainda os desdobramentos das denúncias feitas em 2002. Ao final da pesquisa, em 2006, 54,5% dos casos de mendicância, trabalho infantil e prostituição, 50% das ocorrências de abuso sexual e 46,7% das reclamações de negligência a abandono foram encaminhados à Justiça. ''No total, 40% dos processos foram arquivados ou por falta de provas ou porque a situação de risco foi suspensa'', informou a enfermeira, reforçando que somente 1,7% dos réus foram condenados. Após cinco anos na Justiça, 31,7% dos processos ainda estão em andamento, de acordo com dados da tese.

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