Violência em Foz é superior à do Rio
Cálculos realizados pela Folha com base em dados oficiais revelam que, no ano passado, Foz do Iguaçu registrou um número relativo de homicídios superior ao do Rio de Janeiro. A cidade paranaense teve em 97 uma média de 8,87 homicídios por grupo de 10 mil habitantes. No mesmo período, o Rio de Janeiro registrou uma média de 6,80 assassinatos por grupo de 10 mil pessoas.
Ney de SouzaIntranquilidadeCadáver é retirado de rua na Vila Portes, região da Ponte da Amizade (no alto); médico-legista Jomar Giostri, diretor do IML, na sala de necrópsiaDesde os anos 80, a capital fluminense passou a ser considerada uma das cidades mais violentas do mundo, principalmente devido à atuação do crime organizado e de exterminadores. Além dos altos índices de violência, Foz e Rio têm outro ponto em comum: são dois dos principais centros de atração turística do Brasil.
O Instituto Médico-Legal (IML) de Foz, que atende 12 municípios do Extremo-Oeste paranaense, recolheu no ano passado 205 cadáveres vítimas de homicídio. Segundo o diretor do IML, Jomar Silveira Giostri, 90% dessas mortes ocorreram em Foz. A maioria dos homicídios foi causada por tiros (165 casos). Houve ainda 24 mortes por esfaqueamento, 15 por espancamento e uma por sufocação.
A cidade do Rio de Janeiro registrou no ano passado 3.810 casos de homicídio, de acordo com levantamento realizado pela Secretaria Estadual de Segurança Pública. Os números foram repassados à Folha pela assessoria de imprensa do órgão estadual.
Localizada na confluência de fronteiras mais movimentada e perigosa da América do Sul, Foz tem 231 mil habitantes e polariza uma pequena área metropolitana trinacional que soma aproximadamente 600 mil pessoas (Santa Terezinha de Itaipu, no Paraná; Ciudad del Este, Puerto Franco e Hernandárias, no Paraguai; e Puerto Iguazú, na Argentina).
Ney de SouzaMajor José Antônio da Silveira (acima) e Romeu Olmar Klich (abaixo)Com 5,6 milhões de habitantes, a cidade do Rio de Janeiro é o centro de uma região metropolitana com 10 milhões de pessoas, concentradas em 20 municípios. De acordo com o levantamento da Secretaria de Segurança Pública daquele Estado, a Baixada Fluminense (que integra a Região Metropolitana e é considerada uma das áreas mais violentas do mundo) registrou 2.288 homicídios em 97. A soma total de assassinatos no Estado no ano passado foi 7.879.
Atuando há 19 anos como legista em Foz do Iguaçu, o médico Jomar Giostri, de 44 anos, conta que ainda se assusta com os índices de mortes violentas na cidade. São números de cidade grande em uma cidade média, compara. Cascavel, por exemplo, que é uma cidade do mesmo porte de Foz, não tem nem a metade dos homicídios que temos aqui.
Autoridades de segurança ouvidas pela Folha apontam três causas principais para a explosão da violência: a localização geográfica de Foz, que facilita a fuga de criminosos para os países vizinhos; a facilidade para a compra de armas no Paraguai e a crise econômica na fronteira, provocada principalmente pelo desemprego gerado após o fim das obras da Hidrelétrica de Itaipu, na década de 80, e a crise no turismo de compras em Ciudad del Este, agravada a partir de 1995.
Para o pastor Romeu Olmar Klich, de 36 anos, eleito na semana passada secretário-executivo do Movimento Nacional dos Direitos Humanos e que nos últimos quatro anos atuou em defesa dos direitos humanos na Tríplice Fronteira, a garantia da impunidade dos assassinos e a violência policial contribuem para aumentar o número de homicídios.
A maioria dos casos de homicídio não chega a ter inquérito aberto e os que chegam dificilmente são concluídos. Como a maioria das vítimas é pobre, as coisas ficam por isso mesmo, afirma Klich.
Levantamento do IML confirma essa última constatação. A maioria das vítimas de homicídio em Foz são homens (80%), na faixa entre 18 e 30 anos, moradores de favelas e mestiços, com pelo menos uma passagem pela polícia.
Segundo o major José Antonio da Silveira, de 44 anos, comandante-interino do 14º Batalhão de Polícia Militar, 70% dos homicídios são decorrentes de guerras de quadrilhas que atuam principalmente no tráfico de drogas, em roubos e assaltos.





