Violência da PM em invasão será investigada
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 19 de abril de 2002
Érika Pelegrino Reportagem Local 
O comando do 5º Batalhão da Polícia Militar (BPM) vai instaurar um procedimento administrativo, na modalidade sindicância, para investigar as denúncias feitas por moradores da invasão Nossa Senhora Aparecida, zona norte de Londrina. Eles acusam a PM de terem agido com violência na noite de quarta-feira.
A decisão foi tomada ontem de manhã, depois que integrantes do Centro de Direitos Humanos (CDH) estiveram no local para ouvir os depoimentos dos moradores. Eles convidaram o comandante do 5º BPM, tenente-coronel Rubens Guimarães para comparecer também.
Relatos chocantes de medo, insegurança e discriminação foram feitos ao tenente-coronel Guimarães e ao membro do CDH, Gelson Gil. Vítimas da violência da Polícia Militar, cerca de 600 pessoas a maioria crianças viveram duas horas de terror na quarta-feira. Mulheres e crianças assustadas, homens indignados contaram que foram acordados às 22 horas por mais de 50 policiais arrombando as portas das suas casas, disparando tiros para o alto e tirando adultos e crianças das camas com armas apontadas para suas cabeças.
A menina L., de sete anos, contou que foi acordada com uma arma apontando para sua cabeça. Minha mãe me tirou da cama e o policial apontava a arma para mim e para ela, relatou. Ontem de manhã, a menina dizia ainda sentir medo. Seu irmão B. 11 anos, ficou sozinho dentro de casa enquanto cinco policiais reviravam sua casa. O resto da família estava do lado de fora. Ele teve pesadelos à noite e está muito assustado, contou a mãe Rosane Rocha.
Sandra Mara Nunes teve o filho preso e solto no mesmo dia, seus alimentos foram jogados no chão, sua filha adolescente, de 13 anos foi xingada por um policial. Ela disse que os outros filhos ficaram escondidos embaixo da cama. Eu dou muito valor para comida. Sei o sofrimento que é não ter o que dar de comer para seus filhos. Eles não podiam ter feito isto. E como vão xingar uma adolescente?, reclamou Sandra Mara.
A justificativa do comandante do 5º BPM era de que os policiais (23 viaturas e mais de 50 homens armados) estariam numa ação por causa de um tiroteio na região e ao chegarem no local teriam sido recebidos a tiros. Segundo Guimarães, uma das viaturas (um Corsa) foi atingida no retrovisor esquerdo. É mentira. As únicas armas que temos aqui são nossos barracos e Jesus, afirmou Snadra Mara para o coronel.
Olivina Leonel contou que o terror só parou porque os moradores do São Jorge, bairro ao lado da invasão, começaram a chegar no local para ver o que estava acontecendo. A partir da próxima semana moradores e os policiais começaram a ser ouvidos, segundo o coronel Guimarães. A sindicância terá um prazo de 25 dias para ser concluída.
O CDH irá encaminhar relatórios com os depoimentos para o Ministério Público e para o comando do 5ºBPM. Outra ação será a criação de um Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos na invasão para organizar a comunidade.


